No centro de Faro, há um espaço onde a prática de ioga procura afastar-se da ideia de uma aula igual para todos. No Ashtanga House Faro, Ricardo Louro e Inês Brilhante ensinam Ashtanga Yoga a partir da tradição de Mysore, no sul da Índia, propondo uma prática construída progressivamente e adaptada a cada pessoa.
O projeto nasceu em 2022 e tem como objetivo dar a conhecer uma forma de praticar ioga assente na autonomia, na consistência e no acompanhamento individual. Ricardo, de 33 anos, nasceu em Faro e cresceu em Portimão, enquanto Inês Brilhante, de 32 anos, nasceu em Coimbra, mas mudou-se para Portimão quando era bebé. Foi precisamente em Portimão, durante o ensino secundário, que se conheceram. Na altura, eram apenas amigos. A paixão e o ioga surgiriam mais tarde e através de caminhos diferentes.
No caso de Inês, o primeiro contacto com a prática aconteceu na adolescência. A mãe já praticava ioga e Inês acompanhava-a ocasionalmente às aulas. A experiência ficou-lhe na memória, sobretudo pela possibilidade de trabalhar o corpo, respirar de forma consciente e criar ligações com outras pessoas. Só anos mais tarde encontraria no Ashtanga uma prática regular.
Ricardo descobriu o ioga durante a licenciatura em Sociologia, em Coimbra. Estava, nas suas palavras, “um pouco ansioso, um bocado perdido” quando encontrou um shala de Ashtanga Yoga. Começou a praticar e, durante os três anos da faculdade, a prática tornou-se uma parte central da sua vida. “Esta prática enraizou-se tanto em mim que acabei o curso, mas a minha cabeça já só estava na Índia”, conta Ricardo, com um sorriso.
Depois de terminar a licenciatura, viajou para Mysore, onde permaneceu três meses a estudar Ashtanga Yoga com Saraswathi Jois. Foi aí que começou a aprofundar outras dimensões da tradição védica, como o canto, o pranayama e o sânscrito. O seu percurso de estudo continuaria após o regresso a Portugal, onde passou a ensinar e a aprofundar a sua prática com professores nacionais e internacionais.
Quando regressou, em 2019, começou a dar aulas de ioga em Portimão. Foi também nessa altura que Inês começou a praticar Ashtanga com Ricardo. O que inicialmente era uma prática acompanhada nas aulas, rapidamente passou para o quotidiano: Inês começou a praticar diariamente em casa e, ao longo dos anos, foi aprofundando o método através de workshops, eventos e do contacto com professores.
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Uma prática que não começa igual para todos
É esta autonomia que está no centro da proposta do projeto em Faro. O Ashtanga Yoga segue uma sequência estruturada de posturas, que o praticante aprende progressivamente. Em vez de uma aula em que o professor conduz todo o grupo ao mesmo tempo, no formato Mysore cada pessoa trabalha a sua própria sequência, no seu próprio ritmo, enquanto o professor acompanha individualmente e de forma personalizada para cada aluno.
“Adaptamos sempre a sequência à pessoa”, explica Ricardo. Isto não significa que cada aluno pratique isoladamente. Pelo contrário: a sala é partilhada, mas cada um encontra-se num ponto diferente do seu percurso. O professor está presente para ensinar novas posturas, esclarecer dúvidas e fazer ajustes, acompanhando a evolução de cada aluno. O próprio Ashtanga House Faro apresenta o método como uma construção individual e progressiva, respeitando as capacidades e limitações de cada praticante.
Para quem está habituado às aulas de ioga guiadas, esta abordagem pode parecer pouco convencional. Ricardo reconhece que algumas pessoas “acham estranho” não existir uma aula em que todos fazem exatamente o mesmo ao mesmo tempo. Mas, para ele, essa é uma das características que torna o método especial: o praticante aprende uma sequência que pode levar consigo para fora do estúdio.
“Pode ir de férias e continuar a praticar. Se há um dia em que não pode vir ao estúdio, pode praticar em casa, porque é uma prática individual.” A autonomia começa, aliás, logo nos primeiros dias. A proposta é não sobrecarregar quem está a começar: ensinam-se inicialmente poucas posturas, permitindo que a pessoa memorize a sequência e desenvolva uma relação progressiva com a prática. Segundo Inês, mesmo uma prática curta, de 10 ou 15 minutos, pode constituir uma pausa no quotidiano.
De uma pequena sala em casa para o centro de Faro
O projeto começou em 2022, ainda em casa de Ricardo e Inês. Durante cerca de quatro anos, deram aulas numa pequena sala onde cabiam, nas palavras dos próprios, “como sardinhas”, cerca de oito pessoas. O crescimento do projeto acabou por tornar esse espaço insuficiente. Hoje, o Ashtanga House Faro funciona na Rua Brito Cabreira, no centro da cidade.
A mudança para Faro também acompanha a história dos dois. Depois de passagens por diferentes locais, incluindo Coimbra, Portimão e Aljezur, acabaram por fixar o projeto na cidade onde Ricardo nasceu e onde a família tinha uma casa. A chegada a Faro significou introduzir na cidade uma abordagem muito específica do Ashtanga Yoga. Segundo Ricardo, embora o método esteja mais disseminado noutros contextos, em Faro a proposta de ensino tradicional em estilo Mysore era uma novidade.
A receção, dizem, tem sido positiva, embora exista um período inicial de adaptação. “Demora tempo a dar a conhecer. Algumas pessoas acham estranho não ser uma aula guiada e sentem-se um bocado perdidas, mas depois entram no fluxo.”
No Ashtanga House Faro, as aulas Mysore e Guiada são adequadas a praticantes de todos os níveis de experiência, incluindo quem nunca praticou Ashtanga Yoga e pretende começar, mediante marcação da primeira aula. Nos dias de lua cheia e lua nova não existem práticas, de acordo com o calendário do estúdio.
A aula experimental custa 10€ e é válida uma única vez para residentes em Faro e arredores. As mensalidades custam 50€ para oito aulas por mês (duas vezes por semana) e 70€ para 12 aulas (três vezes por semana), enquanto uma aula avulsa tem o custo de 15€.
Os alunos e professores da Universidade do Algarve beneficiam ainda de descontos no pack de 12 aulas. As mensalidades são válidas para o mês corrente e devem ser pagas entre os dias 1 e 8, sendo recomendado aos novos alunos que iniciem a prática no início do mês.
Mais do que posturas
Apesar de o movimento e a sequência de posturas serem uma parte visível da prática, o Ashtanga Yoga que Ricardo e Inês ensinam não se resume à dimensão física. A coordenação entre respiração e movimento, a concentração e outras técnicas fazem parte do método. O objetivo é desenvolver gradualmente uma prática cada vez mais concentrada e meditativa.
Essa dimensão explica o percurso dos dois além do tapete. Ricardo mantém desde 2020 um estudo tradicional de Vedanta, depois de três anos de estudo no centro Arsha Vidya, e continua a estudar com Swamini Tattvamayananda ji. Inês iniciou o estudo de Vedanta em 2022 e aprofundou o interesse pelo Ayurveda, tendo realizado formação em massagem ayurvédica. Para ambos, o ioga não se esgota na execução das posturas.
No caso de Ricardo, essa transformação é evidente quando recorda os primeiros anos da prática. Descreve-se nessa altura como uma pessoa ansiosa, preocupada e com bastante stress. A prática, diz, trouxe-lhe “uma firmeza interior” e “uma estabilidade”.
Inês, que o conhecia desde antes do ioga, confirma a mudança: “Era uma pessoa que não sabia o que queria”, recorda, antes de falar dos vários caminhos académicos e profissionais que Ricardo foi experimentando até encontrar uma direção. É uma das razões pelas quais o casal encara a prática como uma ferramenta que pode ser integrada na vida quotidiana e não apenas como uma atividade física realizada algumas vezes por semana.
Construir uma comunidade em Faro
Hoje, o Ashtanga House Faro recebe pequenos grupos, permitindo que Ricardo e Inês mantenham o acompanhamento individual que consideram fundamental no método. Os horários distribuem-se por vários dias da semana, com aulas de manhã e ao final da tarde, procurando facilitar a integração da prática em diferentes rotinas.
O espaço procura também ir além das aulas regulares. Ao longo do seu percurso, tem acolhido workshops e convidados, incluindo professores internacionais de Ashtanga Yoga, bem como atividades relacionadas com a cultura e tradição indianas. Existem ainda eventos dedicados a práticas como pranayama, canto védico e outras áreas relacionadas.
A ambição do casal passa precisamente por aí: não só aumentar o número de praticantes, mas criar uma comunidade à volta do espaço. “Dar a conhecer e criar um espaço que seja uma comunidade”, explica Inês. Para Ricardo, há ainda uma motivação mais pessoal: permitir que outras pessoas encontrem na prática uma ferramenta semelhante àquela que encontrou quando começou. “O principal objetivo é que a prática faça pelas pessoas o que fez por mim”, afirma.








