Para Mischa Gurov, um ginásio não é o melhor lugar para fazer exercício. “Associo os ginásios a um hamster numa roda e sinto-me preso”, conta à NiT. Prefere, sim, trocar as máquinas indoor por atividades ao livre, pelo sol e água. Para se manter ativo, encontrou uma solução que, para muitas pessoas, parece pouco prática: todos os dias atravessa um lago e vai a nado para o trabalho, em Zurique, na Suíça, onde vive há sete anos. O percurso faz parte da rotina desde 2019 e pode ter entre 800 metros e 1,5 quilómetros, dependendo dos pontos de entrada e saída que escolher.
O analista de negócios num banco privado, natural da Rússia, pratica desporto desde miúdo. “Sempre nadei e quando era novo fazia esqui com regularidade”, recorda. O gosto pela natação acabou por acompanhá-lo até à idade adulta.
O homem de 45 anos é, também, apaixonado por Portugal. Durante os anos de estudante, conheceu o vinho do Porto, que começou a ser uma das suas bebidas de eleição. “Foi amor ao primeiro gole”, recorda. Anos mais tarde, a ligação ganhou outra dimensão. Mischa trabalhou na Leonteq Securities AG, empresa que tem um escritório em Lisboa, e foi nessa altura que conheceu vários portugueses. As conversas acabaram por lhe apresentar uma imagem do País associada ao mar, à atividade física e à vida ao ar livre.
“Contaram-me que nadavam no oceano e corriam junto à costa”, diz. Para alguém habituado a procurar formas de fazer exercício fora de portas, a ideia ficou-lhe na memória. “Para mim, aquilo sempre pareceu um pouco o paraíso.”
Antes de transformar a deslocação para o trabalho numa sessão de natação, já tinha experimentado uma rotina semelhante em Londres. Em 2017, nadava com regularidade no lago de Hyde Park, onde existia um clube dedicado ao desporto.
Foi aí que ouviu falar de pessoas que iam a nado para o trabalho numa cidade suíça chamada Berna, atravessando o rio Aar. A história impressionou-o. “Soava como uma terra de sonho, como um paraíso que tem também uma forma de viver utópica.”
A oportunidade de se mudar para a Suíça surgiu quando procurava um novo emprego. Um antigo colega partilhou com ele uma vaga em Zurique. Candidatou-se, foi aceite e percebeu que a mudança poderia transformar aquele sonho distante numa rotina. “Permitiu materializar aquela deslocação mágica para o trabalho e transformá-la numa realidade diária.”
Emigrou em abril de 2019 e começou a experimentar o percurso. A primeira tentativa serviu para perceber que a água não perdoava. Mischa decidiu atravessar o Lago Zurique para chegar ao trabalho num percurso de 850 metros, com a água a 13 graus. “Não foi uma grande ideia”, admite.
Não usou nenhum fato especial, porque considerou que “isso seria batota”. Depois de sair, ficou a tremer durante meia hora. No entanto, a experiência não o afastou da ideia. Pelo contrário: ajudou-o a perceber os cuidados necessários para tornar a rotina sustentável, sobretudo durante os meses frios.
Ver esta publicação no Instagram
Hoje, o percurso é flexível. Pode nadar entre 800 metros e 1,5 quilómetros, escolhendo os pontos onde entra e sai da água. O horário também é determinado por uma condição concreta: tem de terminar antes das oito da manhã, altura em que começa o tráfego de barcos. A preferência é entrar na água entre as 7 e as 7h30.
No trabalho, Mischa tem cacifos onde pode deixar a roupa de escritório, o que elimina a necessidade de transportar tudo durante a natação. Sai vestido com roupa desportiva leve e sandálias próprias para a água. A boia de natação impermeável leva o cartão de acesso ao trabalho, o smartphone, as chaves, o cartão bancário, os óculos, a touca e uma toalha.
Já leva os calções de banho vestidos para tornar a mudança mais rápida. Antes de entrar na água, guarda a roupa desportiva na boia e prepara o restante equipamento. Há, no entanto, uma regra que considera essencial. “É fundamental aquecer antes de nadar, sobretudo no inverno”, ou seja, esta rotina é contínua, seja verão ou inverno.
O hábito já se tornou conhecido entre os colegas. A reação mais comum é simples: “És louco.” Mischa, contudo, responde sempre da mesma maneira: “Não, é o contrário: toda a gente é louca por não aproveitar uma oportunidade tão fantástica.”
Claro que nem todos os momentos são tranquilos. Durante algumas travessias, sobretudo quando está no meio do lago, a cabeça começa a criar problemas que não estavam previstos. “Às vezes, começou a pensar em como aquilo é fundo e no que estará lá em baixo.”
Quando esse pensamento aparece, tenta afastá-lo e concentrar-se na natação. Já houve outro episódio em que o problema foi mais concreto: os óculos começaram a deixar entrar água. Faltavam cerca de 400 metros para chegar à margem e não havia ninguém por perto. A prioridade passou a ser manter a calma. “O que importa é não entrar em pânico”, realça.
Entre os momentos mais marcantes de todas as manhãs, há um que guarda pela sensação de proximidade com a natureza. Um dia, enquanto nadava, foi acompanhado durante vários metros por carpas. “Elas estavam a tomar-me por um peixe maior e amigável e sentiam-se muito confortáveis.” Os peixes seguiram à frente dele, em grupo, enquanto fazia o percurso. “Aquele momento foi incrível: uma união absoluta com a natureza. Um momento de harmonia.”
A relação com o local onde nada também acabou por ultrapassar o exercício. Mischa começou a ajudar a cidade ao limpar o canal, retirando o lixo que encontra durante os percursos. A recolha tornou-se numa espécie de surpresa diária, porque nunca sabe o que vai encontrar. “Todos os dias há algo novo, como num bom restaurante de peixe”, brinca.
No entanto, o maior benefício é a ligação que desenvolve com a natureza. “Permite ver aquilo que os outros não veem, o mundo subaquático e um nascer do sol incrível. Enquanto a minha saúde permitir, vou continuar”, garante.
Aproveite e leia o artigo da NiT para conhecer também a história de Mayra Santos, que nadou da ilha da Madeira até Porto Santo.
Carregue ainda na galeria para ver algumas imagens tiradas por Mischa Gurov no lago.







