Aos 17 anos, Barbara Matsusaki, ou Baboo como é mais conhecida, entrou pela primeira vez numa produtora de pós-produção em São Paulo. Duas décadas depois, a designer e animadora gráfica continua a explorar as possibilidades do movimento, desde a animação 2D e 3D ao stop motion, da ilustração à realidade virtual e às instalações imersivas.
Pelo caminho, criou a Hilda Motion, um estúdio que nasceu durante a pandemia e que hoje tem uma equipa dividida entre São Paulo e Faro e que já colaborou em projetos com a Netflix e a HBO.
Cresceu no interior de São Paulo, numa família em que a arte fazia parte do quotidiano. O pai trabalhou como diretor de arte e, mais tarde, tornou-se estilista. A mãe vendia as roupas que o marido criava. Entre as irmãs, muitas seguiram o caminho da moda. menos Baboo.
“Sabia que ia trabalhar com alguma coisa à volta da arte”, conta. A animação surgiu quase como uma descoberta. Primeiro imaginou-se a trabalhar em 3D, com modelação. Depois interessou-se pelo stop motion, depois de ver os bastidores do filme “O Estranho Mundo de Jack”, de Tim Burton. Quando descobriu o motion design, encontrou uma linguagem que acabou por se tornar o centro no seu percurso.
Da publicidade à procura por projetos que façam sentido
O primeiro estágio aconteceu numa produtora de pós-produção. O trabalho passava sobretudo pela publicidade, efeitos visuais e pequenas animações para campanhas, muito longe do universo das séries ou longas-metragens de animação.
Foi nesse contexto que percebeu que não queria escolher um único setor. Ao longo da carreira, trabalhou em publicidade, projetos corporativos, cinema, séries e, mais recentemente, em instalações e experiências imersivas. Para ela, a fronteira entre esses mundos é menos importante do que o que existe em cada projeto.
“Importa muito mais o que é o projeto em si, ou qual é a técnica que vou usar, se vou aprender ou experimentar alguma coisa nova”, explica. E há ainda outro elemento fundamental: as pessoas. Trabalhar com uma equipa de que gosta “faz muita diferença”.
Antes da Hilda Motion, Baboo já tinha criado outros projetos. O Estúdio Ni nasceu como um coletivo e acabou por se dividir entre interesses diferentes: enquanto um dos sócios queria aproximar-se do live action, Baboo queria continuar a explorar a animação. Depois surgiu a Daemon, criada com uma amiga e sócia, Déa. O seu falecimento por cancro, em 2019, mudou profundamente o rumo profissional de Baboo. Poucos meses depois, chegou a pandemia.
Nesse período, decidiu experimentar pela primeira vez o mercado corporativo e entrou para uma empresa brasileira de jogos, onde ficou responsável pelo departamento de marketing. O emprego oferecia estabilidade e um bom salário, mas havia um problema. “Estava a ganhar um bom salário, mas o trabalho estava a matar-me aos poucos. Era muito aborrecido”, confessa..
A pandemia tornou essa insatisfação impossível de ignora e Baboo começou a repensar as suas escolhas e o que queria para o futuro. Foi aí que decidiu arriscar. Entre 2020 e 2021, nasceu a Hilda Motion. Desta vez, Baboo queria fazer tudo de outra maneira.
Depois de ter criado empresas com sócios, a intenção era começar sozinha, sem a ambição de construir um grande projeto. O objetivo era criar um espaço de trabalho ético, criativo e compatível com a forma como queria trabalhar.
Queria poder escolher os projetos, trabalhar com as pessoas de que gostava e construir um ambiente no qual se sentisse bem. A Hilda acabou por crescer, mas manteve parte dessa filosofia inicial. Hoje, a equipa tem dez pessoas, distribuídas por Portugal e Brasil. Sete trabalham no Brasil, enquanto outras três estão em Faro: Baboo, Letícia Mello e Isabella Papa.
O estúdio mantém uma estrutura remota, uma característica que já fazia parte da sua forma de trabalhar desde a pandemia. Desenvolve projetos para empresas brasileiras, mas também para clientes na Europa, incluindo Reino Unido, Espanha e Itália.
De São Paulo para Faro
Faro entrou na história da Hilda de forma pouco planeada. Letícia, sua amiga de infância, tinha-se mudado para Faro 11 anos antes de Baboo. Em São Paulo, trabalhava na área de produção cultural. Em Portugal, porém, acabou por desempenhar trabalhos em diversas áreas.
As duas começaram a trabalhar juntas quando Letícia passou a colaborar como freelancer em alguns projetos de Baboo. Quando surgiu a ideia da Hilda, a parceria tornou-se mais próxima. Ao mesmo tempo, Baboo queria mudar-se para a Europa. O destino inicialmente pensado era a Alemanha, onde a sua esposa tinha ligações profissionais.
Na época, Faro deveria ser apenas uma paragem temporária. “Esses três meses agora já são quatro anos”, diz, entre risos. A escolha de Faro acabou por acontecer por acaso. Quando pensava em Portugal, imaginava Lisboa e Porto, que associava ao mesmo universo de São Paulo: cidades grandes, com trânsito e ruas movimentadas. O que procurava era o contrário.
Quando chegou, Baboo descobriu uma outra dimensão da cidade. Além do turismo e do imaginário de destino balnear, encontrou uma comunidade criativa que não conhecia. Universidade, cursos de imagem animada, eventos de design e tecnologia, estúdios de animação, iniciativas culturais e estruturas como o Loulé Criativo começaram a revelar-lhe um Algarve diferente. “Comecei a ver todo esse polo criativo, u seja, não é só praia”, afirma.
Uma Hilda algarvia
Abrir a Hilda em Portugal não significou começar do zero. O estúdio já existia e funcionava remotamente. Era uma questão de criar uma estrutura empresarial em Portugal. Nesse processo, a ligação com a comunidade local revelou-se essencial.
Pessoas ligadas à universidade ajudaram a encontrar contatos e profissionais que facilitaram questões burocráticas e contabilísticas. A partir daí, começaram a surgir novas oportunidades. A Hilda passou a colaborar com empresas e produtoras locais, incluindo a agência Kobu, participou no programa Ideias em Caixa, onde venceu com um projeto, e conseguiu financiamento através do Loulé Film Office para duas curtas-metragens.
A equipa também começou a aproximar-se da universidade, recebendo alunos para estágios. Para Baboo, esta integração é importante porque responde a um dos problemas que identifica na região: muitos dos jovens que se formam no Algarve acabam por sair. “Vão para outros sítios e acho que é uma pena, porque vejo um potencial muito grande para toda a cidade, na verdade, para todo o distrito de Faro.” observa.
Da Netflix à realidade virtual
O trabalho da Hilda atravessa várias linguagens e escalas. No campo do motion design e dos grafismos para séries, o estúdio já trabalhou para plataformas como Netflix, Amazon Prime e HBO.
Um dos projetos de maior dimensão foi a série da Netflix, “DNA do Crime”, na qual a equipa trabalhou em elementos gráficos que, muitas vezes, são quase invisíveis para o espectador: ecrãs, interfaces e outros elementos presentes dentro das cenas.
É esse tipo de trabalho que demonstra como a animação pode estar presente no audiovisual, sem necessariamente chamar a atenção para si própria.
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Na animação 2D, Baboo destaca projetos como “Um Crime Entre Nós”, produzido em parceria com a Maria Farinha Filmes. Aborda o tráfico sexual infantil no Brasil e recorre à animação para representar situações particularmente difíceis de filmar. No extremo oposto está “Talkify”, um projeto comercial desenvolvido com a produtora portuguesa Mezzo Lab, também baseado em animação 2D.
E a Hilda está cada vez mais interessada em atravessar o ecrã. Na realidade virtual, “Catwalk”, uma coprodução com Espanha, combina VR e animação 2D. Outro projeto, “Mother Tree”, encontra-se em pré-produção e deverá estrear na Bienal de Veneza, em 2027.
Há ainda as instalações imersivas, área que Baboo vê como uma das direções mais promissoras para o futuro do estúdio. Uma dessas experiências é “Redes”, desenvolvida com Isabela Papa e apresentada no Algarve Design Meeting. A próxima instalação será apresentada na Fábrica da Cerveja, em Faro, em parceria com o Teatro das Figuras.
Um estúdio a mudar de direção
Se há uma palavra que atravessa o percurso de Baboo é experimentação. E é precisamente essa vontade de experimentar que está agora a levar a Hilda para novos territórios. O estúdio nasceu ligado a uma ampla variedade de trabalhos, incluindo publicidade e conteúdos corporativos, mas Baboo vê mudanças profundas nesse mercado, sobretudo com a expansão da Inteligência Artificial (IA).
Muitos dos trabalhos que anteriormente eram realizados por estúdios externos passaram a ser produzidos internamente, pelos próprios clientes ou recorrendo a ferramentas de IA. Para um pequeno estúdio especializado, isso representa um mercado cada vez mais difícil. A resposta da Hilda não passa por abandonar a animação comercial, mas por procurar projetos onde a criatividade, a cultura e a experiência tenham um papel mais central. “Quero cada vez mais poder trabalhar com projetos culturais”, afirma.
É também aqui que a mudança para a Europa ganha outro significado. Baboo vê no continente uma abertura maior para instalações, museus, experiências imersivas e projetos culturais apoiados por financiamento público.
A artista dá como exemplo o Museu Zero, em Tavira, que mostra que estes espaços não precisam de estar concentrados nas grandes capitais. É essa descentralização que considera interessante.
Fazer mover o que está parado
A própria identidade da Hilda resume essa vontade de experimentar. O estúdio trabalha com os clássicos, animação 2D e 3D, stop motion e ilustração, mas procura novas técnicas e formas de contar histórias.
A frase que define a Hilda poderia, de certa forma, definir o percurso de Baboo: se está parado, pode ser posto em movimento.
Há 20 anos, essa descoberta começou numa produtora de São Paulo. Passou por publicidade, efeitos visuais, cinema, televisão, diferentes estúdios e mudanças pessoais profundas. A pandemia acabou por dar o impulso final para criar a Hilda.
Quatro anos depois de chegar a Faro com a intenção de ficar apenas três meses, Baboo encontrou no Algarve não apenas uma casa, mas um novo território profissional. Agora, o movimento continua.
Menos interessado em seguir uma fórmula fixa e cada vez mais voltado para a cultura, instalações, realidade virtual e projetos autorais, o estúdio procura o que Baboo procurou desde o início: projetos que permitam aprender, experimentar e trabalhar com pessoas que partilham a mesma vontade de criar.
Porque, para a Hilda, a animação nunca foi apenas fazer imagens mexerem-se. É descobrir o que ainda pode ganhar movimento.







