Há um momento em “Joana Marques — Culpada ou Indecente?” que resume quase todo o problema do documentário. Joana Marques aparece diante de um quadro, fotografias e nomes espalhados à frente, como se estivesse a tentar reconstruir um caso obscuro, cheio de pontas soltas e suspeitos por identificar. Visualmente, percebe-se a brincadeira. A nível narrativo, não funciona. Não há mistério para resolver. Não há uma peça que falte. Não há sequer a possibilidade real de o espectador chegar ao fim e perceber que afinal tinha entendido tudo mal.
O documentário que estreou esta segunda-feira, 14 de setembro, na Prime Video, com cerca de 86 minutos, tem por base o processo judicial que opôs Joana Marques aos Anjos, depois de a humorista ter criado, em 2022, uma montagem cómica a partir da atuação da dupla no MotoGP, no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão. Na altura, os irmãos Nelson e Sérgio Rosado interpretaram o Hino Nacional antes da prova, e Joana intercalou imagens da atuação com reações de jurados do “Ídolos”, do qual fazia parte. O vídeo tornou-se viral e acabaria por estar na origem do processo em que os músicos exigiram uma indemnização superior a um milhão de euros.
O problema não é o tema. O caso tinha tudo para dar uma narrativa cinematográfica: uma piada publicada na Internet, uma indemnização pedida superior a um milhão de euros, uma discussão sobre os limites do humor, advogados, tribunal, exposição mediática e duas figuras públicas convencidas de que estavam do lado certo, a serem gozadas publicamente. O problema é aquilo que o documentário decide fazer com essa matéria.
Em vez de olhar para o caso à distância e tentar descobrir alguma coisa que ainda não tivesse sido discutida, “Culpada ou Indecente?” aproxima-se de Joana Marques e praticamente nunca sai dali. Joana conta. Os amigos contam. Pessoas próximas comentam. Surgem excertos do espetáculo de stand-up comedy “Em Sede Própria” (que passou por várias salas nacionais entre abril e maio deste ano), imagens dos bastidores, reconstruções e depoimentos filmados num tom sério, como se ainda houvesse factos decisivos por revelar ou dúvidas sobre o desfecho do processo. Mas o espectador já conhece os principais acontecimentos, sabe quem ganhou em tribunal e nunca é surpreendido pelo que vai sendo revelado.
A própria Joana explica ao longo do documentário que nunca acreditou que o processo pudesse acabar de forma muito diferente. Isso até pode ser uma característica interessante da protagonista. O problema é que destrói qualquer tentativa de suspense. É difícil criar tensão em torno de um julgamento quando a personagem central parece estar, desde o início, vários passos à frente da narrativa.
Por isso, “Culpada ou Indecente?” não funciona como thriller judicial, apesar de muitas vezes se vestir como um, mesmo que de forma irónica. Também não funciona totalmente como investigação sobre humor, porque quase nunca abandona a perspectiva de quem fez a piada. E é aí que havia um filme mais interessante escondido.
O caso permitia perguntar até onde pode ir a sátira quando o alvo deixa de ser apenas uma personagem e passa a sentir consequências reais. Permitiria discutir se, vencer juridicamente, significa encerrar a discussão ética. Permitiria até perceber como é que a exposição pública transformou os próprios Anjos, que passaram de protagonistas involuntários de um vídeo viral a símbolos nacionais de uma discussão sobre humor. Nada disso é aprofundado durante tempo suficiente. O filme prefere olhar para dentro.
E, quando olha para dentro, há momentos bons. Joana Marques continua a ter uma capacidade muito rara para encontrar humor em situações surreais sem precisar de o forçar. Há pequenos comentários, silêncios e reações que valem mais do que algumas das sequências mais construídas do documentário. A cantora Sónia Tavares, amiga de Joana, aparece como uma das vozes próximas que ajudam a reconstruir o ambiente em torno do caso. David Fonseca, também ele cantor e amigo da protagonista, faz igualmente parte do documentário e oferece um dos momentos mais leves, aparecendo com uma T-shirt onde se lê “Call my lawyer”.
O detalhe funciona porque não vem acompanhado de uma explicação sobre o porquê de ser engraçado. O filme é melhor quando confia nisso. É pior quando insiste em dizer ao espectador como deve interpretar tudo.
Há várias sequências em que a tese já vem fechada. O processo é apresentado como algo sem sentido, a reação dos Anjos como excessiva, a vitória de Joana como a confirmação de que a sátira estava do lado certo. O documentário não precisa sequer de inventar essa leitura. Foi, em grande medida, a leitura pública do caso. Mas um documentário não tem de se limitar a repetir aquilo que já venceu no debate público. Tem de desconfiar da própria versão. Aqui, isso acontece pouco.
Mesmo quando entram vozes mais críticas, surgem quase como um requisito formal. Estão lá para mostrar que existe oposição, mas quase nuca obrigam a narrativa a mudar de direção. Nunca sentimos Joana encostada às cordas por uma pergunta. Nunca existe aquele instante em que a personagem principal tem de parar, rever uma certeza ou admitir que a história pode ser mais desconfortável do que parecia.
E isso seria particularmente interessante porque “Culpada ou Indecente?” não é feito durante o processo. É feito depois da sentença, depois da exposição mediática, depois de Joana Marques transformar o próprio caso num espetáculo de stand-up. Esse detalhe muda tudo.
O espetáculo já tinha sido uma resposta artística ao processo. Joana pegou numa experiência judicial e transformou-a em material humorístico, usando precisamente a ferramenta que sempre utilizou para lidar com figuras públicas, polémicas e absurdos. O documentário chega depois dessa transformação. Por isso, quando volta a mostrar o processo, o espetáculo, os bastidores do espetáculo e os comentários sobre o espetáculo, começa a criar uma estranha sensação de reciclagem.
O caso já tinha passado das redes sociais para o tribunal e do tribunal para os palcos. Ao transformá-lo agora num documentário, acrescenta-se mais uma camada sem que apareça uma nova história.
Há momentos em que a produção tenta compensar essa falta de novidade com linguagem visual. Entrevistas cuidadosamente iluminadas, planos de documentos, reconstruções, objetos sobre mesas, fotografias e uma montagem que quer dar importância dramática a cada etapa. Tecnicamente, funciona. É um objeto polido. Mas não há fotografia bonita que resolva uma história que não muda de direção.
O documentário segue sempre para o sítio onde esperamos que vá. O vídeo tornou-se polémica. A polémica tornou-se processo. O processo tornou-se espetáculo. O espetáculo tornou-se documentário. Tudo avança sem desvios.
E é curioso porque Joana Marques é, enquanto humorista, precisamente o contrário disso. O melhor humor que faz nasce muitas vezes da capacidade de encontrar uma leitura inesperada numa frase banal, num vídeo ridículo ou numa personagem aparentemente previsível. Aqui, a sua própria história recebe um tratamento surpreendentemente convencional.
Joana é engraçada. O documentário é menos. Não porque faltem boas piadas, mas porque falta uma ideia que consiga justificar 86 minutos. Não há sequer momentos em que o filme parece mais interessado em proteger uma conclusão do que em encontrar uma nova. E isso torna-se visível sempre que volta à questão da liberdade artística.
A decisão judicial é importante. A vitória de Joana também. Mas um documentário feito depois de tudo terminar tinha espaço para ir mais longe. Podia ter perguntado o que acontece quando uma piada deixa de pertencer a quem a fez. Podia ter mostrado como a opinião pública transforma pessoas em vilões durante anos. Podia ter analisado a forma como a Internet amplifica humilhações e depois as conserva para sempre. Podia ter perguntado se um humorista deve alguma coisa ao alvo depois de ganhar. Até podia concluir o mesmo que Joana. Mas teria feito o caminho.
“Culpada ou Indecente?” prefere chegar ao destino quase sem sair do lugar. É por isso que os melhores momentos são os mais pequenos. Os que mostram Joana fora da grande narrativa do processo, sem a obrigação de provar uma tese e sem o aparato de investigação.
Aí existe uma personagem interessante. Inteligente, rápida, competitiva, pouco sentimental em relação ao caso e suficientemente consciente de si própria para perceber o quão absurdo é tudo aquilo. Talvez fosse esse o documentário. Não uma reconstrução do processo, mas um retrato de alguém que foi processado por uma piada, ganhou, transformou a experiência em espetáculo e continuou a avançar.
Porque o verdadeiro tema já não é saber se Joana Marques era culpada ou indecente. O tribunal respondeu à primeira questão há muito. A segunda deixou de ser uma questão jurídica antes sequer de o documentário começar. O que faltava descobrir era outra coisa. E, ao fim de 86 minutos, essa descoberta continua por fazer.







