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Há 12 anos que Gil Silva acompanha o Festival F. Agora, é ele quem decide o cartaz

Quando o evento começou, estava nos bastidores. Mais de uma década depois assume a programação do evento.

“Já fiz um bocadinho de tudo. Já estive na produção, na direção e agora estou na programação”. É assim que Gil Silva, de 52 anos, explica a sua ligação ao Festival F, que anima as ruas de Faro de 3 a 5 de setembro.

A ligação ao Teatro das Figuras começou logo na sua fundação, em 2005, onde desempenhou funções de frente de casa, produtor, programador e diretor interino. Em 2017, assumiu a direção do Festival F, após a morte de um dos seus mentores, Joaquim Guerreiro.

Foi, por isso, com conhecimento acumulado ao longo de anos que chegou à programação da edição de 2026. A saída da agência Sons em Trânsito, ligada ao festival desde a primeira edição, levou o Teatro das Figuras a assumir integralmente essa área. Para Gil, a mudança representa mais um passo num percurso que começou muito de assumir a programação do evento.

Um programa pensado palco a palco

Natural de Vila Real, vive em Faro desde 2003. Licenciado em Economia pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, frequentou o mestrado em Práticas Culturais para Municípios, na Universidade Nova de Lisboa, e o curso de Gestão e Produção de Artes do Espetáculo do Forum Dança.

Programar um festival como o F está longe de ser apenas escolher nomes para um cartaz. Há públicos diferentes, dimensões distintas e espaços que obrigam a pensar cada atuação de forma individual. Em 2026, são 67 concertos distribuídos por sete palcos, entre a música portuguesa mais conhecida, projetos emergentes e propostas que cruzam pop, hip hop, fado, rock, eletrónica e jazz.

“Passa muito por perceber como é que anda o mercado da música, por perceber as tendências e também por fazer uma programação eclética no sentido de abranger vários públicos”, conta.

O Palco Ria, o maior do festival, obriga a uma escolha diferente dos espaços mais pequenos. É ali que chegam os cabeças de cartaz, nomes capazes de responder à dimensão do recinto e às expectativas do público. Nos palcos menores, pelo contrário, há espaço para arriscar.

“Esses palcos mais pequenos é onde ousamos e arriscamos mais”, afirma Gil. É nessa diferença de escala que encontra uma das possibilidades mais interessantes da programação: colocar projetos com menor visibilidade em espaços onde podem ser descobertos. O objetivo não é apenas levar multidões aos maiores palcos, mas construir um percurso pelo festival.

Uma montra da música portuguesa

Há uma característica que Gil Silva considera essencial para perceber o que distingue o F de outros festivais: a aposta na música portuguesa.

Desde a primeira edição, em 2014, que o evento manteve essa identidade e continua presente na 11.ª edição. Ao longo dos anos, o festival cresceu de 5.000 para 38.500 metros quadrados, recebeu mais de 350 mil visitantes e contabiliza 560 concertos.

O cartaz deste ano junta artistas de diferentes gerações e géneros, de Bárbara Tinoco a The Gift, de Moonspell a Slow J, de Carminho a Branko. Mas, para Gil, a dimensão do festival não se mede apenas pelos nomes mais conhecidos.

“Os músicos gostam muito de vir tocar aqui porque temos muito poucos festivais no país com esta génese e que valorizem maioritariamente a música portuguesa.”

É também por isso que a programação não se fecha nos artistas já consagrados. Ao longo dos sete palcos, o público encontra projetos em diferentes momentos das suas carreiras.

Dar palco ao Algarve

Uma das premissas que acompanha o F desde o início é a presença de artistas algarvios. Em 2026, cerca de 30 por cento do cartaz é composto por músicos da região, uma representação que a organização apresenta não como uma quota, mas como consequência da qualidade e vitalidade da criação musical algarvia. 

Gil conhece essa aposta desde os primeiros anos e rejeita a ideia de que os artistas da região estejam no cartaz apenas por uma obrigação territorial. “Desde a primeira edição que temos essa premissa de ter artistas algarvios no cartaz, pela qualidade dos mesmos. E não temos qualquer pejo em colocá-los porque sabemos da qualidade que eles têm”, afirma Gil.

Para o programador, dar-lhes espaço num festival desta dimensão é também uma forma de contribuir para a afirmação da cultura do Algarve. “É um incentivo à própria música que se faz na região”.

Entre um dos nomes algarvios desta edição está Peculiar, artista farense que integra um cartaz onde a representação regional convive com artistas nacionais e com algumas ligações ao espaço lusófono.

Do sonho de três homens a uma equipa

Quando olha para trás, Gil não fala apenas de um festival que cresceu, como de uma equipa que aprendeu a fazê-lo. O F nasceu de um sonho conjunto de Joaquim Guerreiro, Paulo Santos e Vasco Sacramento: criar em Faro um festival capaz de mostrar a cidade através da música. Na primeira edição, Gil estava na produção e o evento tinha quatro palcos: Largo Afonso III, Claustros da Sé, Quintalão e Museu.

O que começou de forma mais modesta foi crescendo até à dimensão atual. Segundo Gil, por volta de 2017 ou 2018, o festival atingiu uma configuração próxima daquela que mantém atualmente. Mas a evolução não aconteceu apenas no número de palcos ou na dimensão do recinto.

As próprias pessoas foram ganhando experiência. “Toda a equipa que faz parte do F não tinha prática na produção de um festival, o que começou a acontecer a partir de 2014”, afirma Gil.

Hoje, apesar de reduzida, considera que a equipa tem experiência suficiente para responder à complexidade do evento. E Gil leva para essa tarefa uma experiência que ultrapassa o F. É diretor do Teatro das Figuras, mas, além dos bastidores, já trabalhou enquanto ator e performer com nomes como João Garcia Miguel, Miguel Pereira, Inéz Boza, Francisco Campos, entre outros.

Há duas palavras que escolhe para definir a relação com o F. A primeira é “construção”. Não apenas porque viu o festival crescer, mas porque sente que o próprio percurso profissional foi moldado pelo evento. “Isto também nos constrói e obriga-nos a refletir”, afirma o programador. 

A segunda começa pela mesma letra do festival: F de felicidade. Não de estar à frente de um grande evento, mas de saber que o trabalho chegou ao público. “A nossa felicidade é saber que o público sai daqui satisfeito. É o nosso maior propósito.”

É essa ideia que parece orientar a nova fase que agora começa. Com a programação assumida pelo Teatro das Figuras, Gil passa a ter nas mãos uma das áreas centrais de um festival que conhece desde os bastidores da primeira edição.

E, apesar da mudança, não fala em reinventar o F, mas antes em consolidá-lo. “Este é um festival que está estabilizado, que é reconhecido quer pelo público que nos visita, quer pelos músicos e por toda a entourage que está à volta.”

O futuro, acredita, passa por manter essa estabilidade, sem abandonar aquilo que tornou o festival diferente: “continuar esta senda de apostar na música portuguesa como um fator diferenciador dos outros festivais”.

A 11.ª edição é assim mais do que a estreia de Gil no comando exclusivo da programação. É mais um capítulo de uma história que começou em 2014 e da qual ele próprio faz parte desde os primeiros passos.

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