A vida de Vitor Rosão divide-se entre dois amores: o mundo da Física e das artes. Quando conversou sobre o seu percurso com a New in Faro, tinha acabado de regressar de Cabo Verde, onde foi analisar e estudar a acústica dos sete aeroportos do Arquipélago de Cabo Verde. Atualmente, coleciona diversos projetos que vão desde os estudos de acústica do novo comboio de alta velocidade, entre Coimbra e o Porto, ao novo aeroporto de Alcochete.
Natural de Coruche, mas radicado no Algarve há mais de 20 anos, viu-se dividido entre duas paixões mal terminou o 12.º ano. De um lado as ciências exatas, do outro, as letras. A escolha acabou por recair sobre a Física, mas não significou o abandono das artes. “Estava na dúvida se devia ir para ciências exatas, filosofia ou letras”, recorda. A Física acabou por ganhar, área onde encontrou uma carreira.
Em 1990, entrou na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa para frequentar Física Tecnológica. Cerca de 30 anos depois, a acústica tornou-se o centro da sua vida profissional, sendo licenciado em Física Tecnológica e doutorado em Ciências da Terra, do Mar e do Ambiente. Dedicou-se aos estudos de vibração sonora, sendo o único membro da Ordem dos Engenheiros especializado em acústica no distrito de Faro.
Estudo da acústica e ruído
O percurso profissional acabaria por convergir na acústica ambiental, com especial atenção ao ruído e à vibração. Ao longo desse percurso, trabalhou em alguns dos projetos de infraestruturas mais relevantes do País, desde os estudos de ruído da Ponte Vasco da Gama e da Expo 98 às barreiras acústicas no IC19 e A1. Anos depois, em 2005, fundou a SCHIU, dedicada a estudos de vibração e ruído.
No entanto, a música e a poesia continuaram a acompanhar o seu percurso, primeiro como hobbies e, mais tarde, através de temas gravados e livros de poesia publicados.
Atualmente vive em Estoi, onde a mulher, Zélia Ramos, nasceu e onde decidiram ficar a morar. Ambos partilham o gosto pelo mundo das ciências e pode-se dizer que sempre tiveram muita química à mistura, sendo Zélia professora de Físico-Química na Escola Básica Poeta Emiliano da Costa.
De autodidata a escritor de poemas
O percurso artístico começou na infância. Muito antes de trabalhar com ruído e vibração, Vitor já se interessava por música. A ligação começou com uma pequena viola que a avó lhe comprou, em Badajoz. Depois, entrou na Sociedade de Instrução Coruchense, em Coruche, por volta dos dez anos. “Já gostava de música e aprendi solfejo e clarinete.”
Autodidata, Vitor começou a aprender música por iniciativa própria. “Estudava muito, era algo que me dava muito prazer”, afirma. Aprendeu clarinete na banda filarmónica, estudou teoria musical, aprendeu a tocar guitarra e piano como autodidata e começou a escrever e a compor muito antes de se lançar à ciências.
Sem Internet, procurava informação em livros na biblioteca e começou a aventurar-se, aos 14 anos, no mundo da composição musical. Os instrumentos ocupam lugares diferentes no seu processo criativo. Algumas composições desenvolvem-se melhor ao piano, outras começam na guitarra, mas a criação musical tornou-se um espaço onde a sua formação científica e matemática também ganham espaço.
Para Vitor, a acústica não pode ser separada da forma como o som é vivido por quem está exposto ao mesmo. O ruído é uma questão não só técnica, como humana e social. “A maior causa de incómodo que os munícipes relatam à Câmara Municipal é o ruído”, afirma Vitor. A observação leva-o a falar de situações muito diferentes. O som de um bar, uma estrada, um aeroporto, uma mota ou um automóvel pode tornar-se um fator de incómodo. Ao mesmo tempo, o ruído pode ter uma dimensão cultural.
Poesia para descobrir o mundo
A vocação para a escrita surgiu igualmente cedo, dividindo espaço com a música como uma das suas maiores paixões. Afirma que não se lembra por qual se interessou primeiro, seja pelos poemas que musicava ou pelas melodias a que atribuía lírica.
O gosto pela literatura deixou de ser um hobbie em 2014, quando lançou seu primeiro livro, “Poemas Pessoais”, uma compilação de poemas que se intercalam entre figuras históricas e pessoas intimas do circulo de Vitor. Desde então, lançou mais quatro volumes da franquia “Poemas Pessoais”, seguindo a mesma lógica do original, mas adicionando novos elementos em cada edição.
Durante grande parte da vida, a música e a poesia permaneceram como atividades pessoais, mas Vitor chegou a colaborar com outros artistas e a escrever para outras vozes. Uma dessas experiências aconteceu com Ana Roque, a cantora que conhece desde muito nova e a quem chegou a ensinar solfejo. O compositor cedeu-lhe uma das suas composições, “Se uma Estrela Cair”, música que incorporou o EP de estreia da artista lançado em 2015, “Olhares”.
A letra nasce de uma ideia simples e romântica, mas contém um jogo de palavras que é característico do seu modo de escrever. Outra composição, “Sol da Minha Vida”, foi gravada por Cristina Paulo.
A atividade artística ganhou uma nova possibilidade com a descoberta da Inteligência Artificial (IA). Vitor tem experimentado ferramentas para fazer edições e trabalhar novas ideias musicais. A tecnologia interessa-lhe precisamente pela capacidade de abrir possibilidades de criação. “A IA abre muitas portas”, afirma. A experiência é suficientemente estimulante para já considerar a possibilidade de gravar um disco com recurso a estas ferramentas.
A mudança tecnológica contrasta com o início da sua aprendizagem musical, quando procurava livros em bibliotecas para estudar teoria. A atitude, contudo, permanece semelhante: aprender, experimentar e testar possibilidades.
Dois universos que nunca estiveram separados
A carreira de Vitor começou na Física, encontrou na acústica a sua área de especialização e levou-o a trabalhar em alguns dos projetos de infraestrutura mais relevantes do País. Ao mesmo tempo, a música e a poesia permaneceram presentes desde a infância e a distância entre estes universos é menor do que pode parece.
O som que Vítor estuda profissionalmente é o mesmo fenómeno físico que utiliza para criar música. Os intervalos e as frequências que analisa enquanto especialista podem transformar-se em matéria de composição. Já a métrica e a matemática são fundamentais para a sua poesia. A Física tornou-se profissão, a acústica tornou-se especialização e a música e a poesia foram crescendo em paralelo, até deixarem de ser apenas hobbies para começar a encontrar outros intérpretes, leitores e formas de publicação.
Com 30 anos de carreira, Vitor olha para um percurso profissional construído à volta do som e para uma atividade artística que nunca deixou de evoluir. Num caso, mede, prevê e procura controlar o ruído. No outro, transforma som, palavras, números e ideias em música e poesia.







