Desde o inicio do ano que a Gama Rama tem uma nova morada, na Rua do Prior, em Faro, representando uma nova etapa de um projeto que nasceu em 2020 pelas mãos de Miguel Neto, de 47 anos, e Toma Svazaite de 39.
Depois de ocupar o número 13 da mesma rua, a Gama Rama mudou-se, em janeiro deste ano, para o número 46, um espaço maior, alguns metros mais adiante, que procura dar resposta ao crescimento do projeto e à procura por espaços de criação.
O conceito, contudo, não surgiu totalmente definido. Quando abriu portas, em setembro de 2020, a Gama Rama era ainda conhecida como Pop-Up Gallery. A ideia inicial era experimentar o espaço e perceber se o projeto poderia funcionar. “Falámos com o proprietário e havia esta ideia de fazer um pop-up, experimentar para ver se corria bem”, conta Miguel.
Apesar de abrir num ano marcado pela pandemia, a resposta foi positiva e acabou por determinar a continuidade do projeto. “Inaugurámos durante o Covid 19 e correu muito bem, apesar do ano que foi. Depois decidimos continuar”, conta Toma.
Dois caminhos que se cruzam na Gama Rama
Por detrás da Gama Rama estão dois percursos distintos, mas complementares. Miguel e Toma são os cofundadores do espaço. Ela é lituana, estudou História da Arte e Curadoria na Lituânia e trabalhou em vários países nesta área. Ele vem sobretudo do universo do som, tendo estudado e trabalhado em sound design e em arte digital.
Miguel fez um mestrado em Artes Digitais em 2009 e, desde 2010, desenvolve o projeto Boris Chimp 504, dedicado a espetáculos audiovisuais e instalações. Paralelamente, acumulou experiência na produção de eventos, incluindo festivais de música de grande dimensão.

Na Gama Rama, os dois percursos acabam por se complementar. “Ela trata da parte de curadoria e eu da parte da logística”, explica Miguel. Foi também a vontade de Toma em criar um espaço dedicado à sua área de trabalho que esteve na origem da galeria.
Depois de chegar a Portugal, em 2015, percebeu que construir aqui o seu percurso profissional poderia não ser tão simples e decidiu criar o seu próprio projeto. Miguel corroborou com a ideia desde o inicio, encontrando nela uma resposta a algo que não encontrava no Algarve. “Sentia que faltava um espaço assim em Faro, então queríamos de criar um lugar com estas características.”
Da pequena galeria ao espaço de criação
A evolução do projeto pode ser medida pelo próprio espaço. Na primeira morada, a Gama Rama ocupava cerca de 200 metros quadrados e tinha quatro estúdios, utilizados por seis artistas, alguns dos quais partilhavam espaço.
A mudança para a nova morada permitiu multiplicar essa capacidade. O projeto passou a dispor de mais espaço expositivo, uma loja maior, cozinha e zona de refeições, além de mais espaços para a criação artística.
“Quando mudámos, continuámos a ser os mesmos, mas com muito mais espaço. Ou seja, tudo é mais.” É também aqui que a ideia de galeria se torna mais abrangente. A Gama Rama trabalha com as artes visuais no seu conjunto e não se limita à pintura. No espaço podem encontrar-se práticas tão diversas como ilustração, cerâmica, joalharia, stencil, tatuagem, design, colagem, trabalho têxtil, fotografia ou pintura de azulejos.
Para Toma, essa diversidade faz parte da própria identidade do projeto. A curadoria e a seleção da loja estão centradas em artistas baseados em Portugal, sejam portugueses ou estrangeiros residentes no país. Segundo a fundadora, cerca de 90 por cento dos artistas apresentados enquadram-se nesse perfil.
Uma antiga fábrica de refrigerantes
O próprio edifício onde a Gama Rama está instalada acrescenta uma camada particular à história do espaço. Antes de receber artistas, exposições e workshops, o local foi em tempos a Refrigerantes Quintódio, uma fábrica que produzia, entre outros, o Sufrute, um refrigerante à base de laranja produzido no Algarve.
A fábrica esteve em atividade entre os anos 60 e 70 e a memória dessa antiga utilização não foi apagada com a chegada da galeria. Pelo contrário, passou a fazer parte da identidade do novo espaço. “Temos aqui algumas peças que são dessa altura”, explica Miguel, referindo-se a um grande placar de plástico que guardam dá época preservado no local.
A escolha de preservar essa memória foi feita no intuito de estabelecer uma ligação entre o passado industrial do edifício e a sua utilização atual enquanto espaço dedicado à criação. O lugar que outrora produzia refrigerantes é hoje ocupado por artistas, oficinas, exposições e atividades culturais.
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Um novo espaço para Faro
A nova Gama Rama ocupa dois pisos e representa uma expansão significativa relativamente à antiga morada. A maior área permite não só receber mais exposições, mas também aumentar a capacidade de acolhimento de artistas e responder à procura por estúdios.
A criação de uma incubadora criativa é uma das dimensões centrais do projeto. Além das funções de galeria, workshops e loja, o espaço serve como oficina e reúne atualmente vários artistas do universo das artes visuais, com 12 espaços de trabalho, permitindo que diferentes práticas coexistam no mesmo edifício.
Mas a intenção não é criar apenas um local onde os artistas possam trabalhar. A Gama Rama procura aproximar quem visita o espaço dos próprios processos de criação. “Não só o produto final, mas também chegar e perceber como se faz cada técnica”, explica Toma.
É nesse cruzamento entre criação e comunidade que entram os workshops. A programação inclui técnicas como cerâmica, bordado, colagem, pintura e gravura, dirigidas tanto a miúdos, como a adultos. A proposta passa por permitir que o público não seja apenas espectador, mas possa experimentar os diferentes processos artísticos.
A loja segue a mesma lógica. Em vez de funcionar apenas como uma extensão comercial da galeria, apresenta peças de autor e trabalhos dos artistas que integram o projeto, dando ao público a possibilidade de levar consigo parte dessa produção.
Gama Rama: Um lugar para parar, descobrir e ficar
A localização também contribui para a singularidade da Gama Rama. A Rua do Prior ou Rua do Crime, como é conhecida em Faro, é famosa pela animação noturna, com bares, discotecas e restaurantes, mas integra igualmente uma zona histórica marcada por um importante legado, visível no conjunto de ruas e vielas que a atravessam.
Durante o dia, a relação com a rua pode parecer menos óbvia. Miguel reconhece esse contraste, mas é precisamente aí que identifica uma das características interessantes do espaço: a possibilidade de ser descoberto quase por acaso. “Gostamos quando as pessoas vêm por aqui, muitas pessoas que não são de Faro, e encontram o espaço por acaso. Ficam espantadas”, conta.
Para quem entra, a proposta é deixar-se ficar. A arte espalhada pelas paredes, os artistas a trabalhar, os workshops e os diferentes espaços do edifício transformam a Gama Rama num ponto de passagem, mas também num destino.
“Gostamos de convidar as pessoas para virem e deixarem-se inspirar. Seja pelo sítio, pelas pessoas que trabalham aqui, pela arte que está espalhada por todas as paredes. É um espaço de encontro”, afirma Miguel.
A experiência dos primeiros anos parece ter confirmado essa vocação. Mesmo durante o período da pandemia, quando a Gama Rama abriu portas, os workshops e inaugurações conseguiram atrair público dentro das regras então impostas.
Para Toma, essa resposta ajudou a confirmar que existia em Faro uma comunidade interessada em arte e em participar nos processos criativos. “Há procura, então por isso funcionou bem.”
O próximo capítulo
A mudança de espaço não representa, por isso, um ponto final, mas uma oportunidade para desenvolver novas ideias. A Gama Rama prepara agora novos projetos e programação para continuar a crescer.
Entre os próximos passos está o Open Studios, uma iniciativa co-organizada por Toma, prevista para outubro, e que dá a conhecer galerias e oficinas por Faro. A Gama Rama pretende acompanhar o evento com a inauguração de uma nova exposição. O programa de workshops e oficinas para a temporada de outono está também em preparação.
A programação da Gama Rama continua a afirmar-se como uma extensão do seu trabalho de promoção e aproximação às artes visuais. A próxima inauguração acontece a 9 de outubro, às 17h00, com a abertura da exposição “O Jardim que Não Vemos”, da artista Annegret Kellner. Integrada no evento Open Studios Faro, a exposição estará patente na Gama Rama até 19 de dezembro, reforçando a aposta do espaço na criação contemporânea e na valorização do trabalho de artistas.
Está ainda prevista a chegada de uma artista residente para uma residência dedicada à pintura de azulejos durante o Open Studios. A artista, natural da Estónia e residente na Nazaré , foi convidada pela Gama Rama para desenvolver esse trabalho no espaço.
A nova morada permite, assim, ampliar uma ideia que começou de forma experimental em 2020. De uma pequena pop-up gallery com quatro estúdios, o projeto transformou-se num espaço dedicado à exposição, produção, aprendizagem e encontro.
A antiga fábrica de refrigerantes ganhou uma nova função sem perder completamente a memória do que foi. E a Gama Rama parece querer fazer o mesmo com a sua própria história: crescer sem deixar para trás as pessoas, os artistas e as experiências que ajudaram a construir o projeto.
Carregue na galeria para conhecer o espaço da Gama Rama.







