Nick Nolte demorou alguns segundos a sair do carro quando chegou ao Festival Internacional de Cinema de Veneza, no dia 8 de setembro. De fato escuro, ténis, cabelo branco comprido e uma barba igualmente grisalha, o ator avançou pela passadeira vermelha apoiado numa bengala. Aos 85 anos, estava muito diferente do homem que, em 1992, aparecia na capa da revista “People” como o mais sexy do mundo.
A presença não passou despercebida. Nolte, que nos últimos anos se tem mantido afastado dos grandes eventos de Hollywood, não pisava uma passadeira vermelha há cerca de quatro anos. Regressou este mês para apresentar “Company”, o novo filme de Casey Affleck, que integrou a competição oficial do Festival de Veneza.
O ator interpreta um homem solitário numa das histórias que compõem o filme, uma narrativa que atravessa diferentes épocas e cruza luto, vingança e perdão. No elenco, estão também Ben Mendelsohn, Adelaide Clemens, Scoot McNairy e Emily Alyn Lind.
Aos 85 anos, Nolte continua, portanto, a trabalhar. Em 2025 participou em “Die My Love”, com Jennifer Lawrence e Robert Pattinson, e este ano integrou também “Crime 101”, ao lado de Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Halle Berry e Barry Keoghan.
A imagem que levou até Veneza está muito distante daquela que o transformou num dos grandes galãs de Hollywood. Mas a transformação física conta apenas uma pequena parte da história de um ator cuja vida passou pelo teatro, pela moda, por três nomeações aos Óscares, problemas com álcool e drogas e uma fotografia policial que se tornou quase tão famosa como os seus filmes.
Nascido a 8 de fevereiro de 1941, em Omaha, no Nebraska, Nicholas King Nolte esteve longe de seguir um caminho convencional até Hollywood. Gostava de desporto e passou por várias faculdades, onde jogou futebol americano, mas acabou por abandonar esse percurso.
Aos 24 anos, foi condenado por vender documentos falsificados, recebendo uma pena suspensa. Foi depois no teatro que começou a encontrar um rumo. Passou vários anos em companhias regionais e trabalhou em diferentes cidades norte-americanas antes de conseguir chegar ao cinema e à televisão.
Antes de ser conhecido como ator, houve ainda outra carreira inesperada. Nolte trabalhou como modelo durante os anos 60 e 70. Fez vários trabalhos publicitários e chegou a aparecer numa campanha da Clairol. “Acabei nas Caraíbas a fotografar um anúncio para a Clairol. Acho que foi a única vez que a Clairol pôs um homem na caixa”, recordou anos mais tarde, aqui citado pela revista “People”.
A grande oportunidade apareceu quando já tinha 35 anos. Em 1976, tornou-se Tom Jordache na minissérie “Homem Rico, Homem Pobre”. A produção transformou-se num fenómeno televisivo nos Estados Unidos e fez daquele ator louro e praticamente desconhecido uma estrela. A interpretação valeu-lhe uma nomeação para os Globos de Ouro e abriu as portas de Hollywood.
Seguiram-se “O Abismo”, em 1977, “North Dallas Forty”, em 1979, e sobretudo “48 Horas”, de 1982. Neste último, Nolte contracenou com um jovem Eddie Murphy, numa mistura de ação e comédia que se tornou um dos grandes sucessos daquela fase da carreira.
Durante os anos seguintes, consolidou a imagem de protagonista duro, desalinhado e pouco convencional. Passou por “Um Vagabundo na Alta Roda” e, em 1991, interpretou Sam Bowden em “O Cabo do Medo”, de Martin Scorsese, ao lado de Robert De Niro e Jessica Lange.
Nesse mesmo ano chegou um dos papéis mais importantes da carreira. Barbra Streisand escolheu-o para protagonizar “O Príncipe das Marés”, onde interpretava Tom Wingo, um homem obrigado a regressar aos traumas da própria família enquanto tenta ajudar a irmã. O desempenho mostrou um lado mais vulnerável do ator e valeu-lhe a primeira nomeação ao Óscar de Melhor Ator e o Globo de Ouro.
Foi nessa fase que surgiu uma das capas mais inesperadas da sua carreira. Em 1992, aos 51 anos, a “People” escolheu Nick Nolte como o “Sexiest Man Alive”. O próprio, que duas décadas antes trabalhara como modelo, contou mais tarde que pensou que a escolha só podia ser um engano.

A distinção ajudou a cristalizar a imagem de galã pouco convencional: cabelo despenteado, voz rouca e uma aparência distante dos protagonistas mais polidos de Hollywood.
Mas a carreira nunca ficou dependente dessa imagem. Em 1998, “Confrontação” de Paul Schrader, valeu-lhe uma segunda nomeação ao Óscar de Melhor Ator. Mais de uma década depois, já longe dos anos de maior fama, voltou a consegui-lo com “Guerreiro”, de 2011. Interpretava Paddy Conlon, um pai alcoólico em recuperação que tenta reconstruir a relação com os dois filhos. Foi nomeado para Melhor Ator Secundário.
A escolha tinha um peso particular para alguém cuja relação com o álcool e as drogas se confundiu durante décadas com a sua própria imagem pública.
O episódio mais famoso aconteceu a 11 de setembro de 2002. Nolte foi detido na Califórnia depois de a polícia o encontrar a conduzir de forma errática na Pacific Coast Highway, em Malibu. Segundo as autoridades citadas na altura pelo “Los Angeles Times”, o Mercedes do ator atravessava faixas de trânsito e chegou a circular na direção contrária.
Nolte explicou mais tarde que tinha consumido GHB, uma substância depressora do sistema nervoso central com efeitos sedativos e de euforia. Nos anos seguintes falou abertamente sobre o consumo da substância, os problemas de dependência e a necessidade de procurar ajuda.
Porém, foi outra coisa que acabou por imortalizar aquele dia. Quando foi fotografado depois da detenção, Nick Nolte apareceu com uma camisa havaiana, cabelo completamente desgrenhado e uma expressão desorientada. A mugshot [fotografia de rosto tirada pela polícia a uma pessoa logo após ser presa] espalhou-se por jornais e televisões e tornou-se uma das fotografias policiais de celebridades mais reconhecidas da cultura popular norte-americana.
O contraste era irresistível: apenas dez anos antes, aquele mesmo homem tinha sido considerado o mais sexy do mundo.
O próprio Nolte acabaria por reconhecer o absurdo da transformação. Ao recordar o episódio no seu livro de memórias “Rebel”, descreveu a imagem como a de “um paciente de um manicómio que saiu para se divertir”. Depois da detenção, procurou tratamento para a dependência e passou cerca de um mês internado. “Assumo toda a responsabilidade por aquilo”, disse anos mais tarde.

A fotografia perseguiu-o, mas não acabou com a carreira. Nolte continuou a trabalhar e, aos poucos, passou dos papéis de protagonista para personagens secundárias, muitas vezes homens marcados pela idade, pelo fracasso ou por relações familiares difíceis.
Foi assim que chegou à terceira nomeação aos Óscares com “Guerreiro”, em 2012, como Melhor Ator Secundário. Depois vieram projetos como “The Company You Keep”, de Robert Redford, “A Walk in the Woods”, “Angel Has Fallen” e a série “Poker Face”. A voz rouca tornou-se também parte da personagem Kuiil em “The Mandalorian”.
E agora há “Company”. Em Veneza, Nolte falou sobre a forma como continua a preparar um papel depois de tantas décadas de carreira. Explicou que tudo começa com o tempo dedicado a perceber a personagem e elogiou Casey Affleck por não tentar forçar uma interpretação, preferindo trabalhar com o ator até encontrar o caminho certo. Affleck devolveu o elogio e destacou a facilidade com que Nolte consegue chegar a lugares “vulneráveis e emocionais” diante da câmara.
É uma observação curiosa sobre um ator que durante muitos anos foi vendido exatamente pela imagem contrária: o homem duro, rebelde e indestrutível.
Quando a “People” o colocou na capa em 1992, Nick Nolte estava no auge. Dez anos depois, uma fotografia policial parecia resumir todos os excessos que tinham acompanhado a sua fama. Passadas mais de duas décadas, nenhuma das duas imagens conta a história inteira.
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