Há tradições que sobrevivem porque há quem se recuse a deixá-las desaparecer. É nesse espaço entre a memória e a continuidade que se encontra o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Conceição de Faro. Desde 1958 que leva consigo parte da identidade cultural da freguesia e do Algarve.
Os ranchos folclóricos nasceram ligados às tradições populares, às festas, às romarias e aos costumes das comunidades. Através dos trajes, das músicas, do canto e das danças, procuram representar modos de vida de outros tempos.
Em Portugal, a formalização destes grupos aconteceu sobretudo ao longo do século XX, num movimento particularmente forte em regiões como o Alto Minho e a Beira Litoral. No Algarve, o Rancho da Conceição tornou-se uma das estruturas que assumiram a missão de preservar e representar a cultura regional.
Uma história que começou em 1958
Fundado no final dos anos 50, por iniciativa da direção da Casa do Povo e de Mário da Encarnação, a criação do Rancho esteve relacionada com a própria afirmação da Casa do Povo de Conceição, que funcionava como delegação da Casa do Povo de Estoi.
O major Mateus Moreno, natural da Conceição de Faro e presidente da Casa do Algarve, em Lisboa, foi quem procurou o folclorista Henrique Bernardo Ramos para formar o grupo,. Perante a sua indisponibilidade, viria a indicar Mário da Encarnação, que assumiu essa responsabilidade.
A primeira atuação pública aconteceu a 8 de dezembro de 1958, durante as festas em honra de Nossa Senhora da Conceição. Os jovens elementos apresentaram-se ainda sem os tradicionais trajes algarvios, vestidos com blusas ou camisas brancas e saias ou calças pretas.
Ao longo da sua história, o Rancho passou por diferentes fases. Depois da entrada de elementos ligados ao Grupo Folclórico de Faro e da passagem de Henrique Bernardo Ramos pela direção artística, a partida de muitos jovens para a guerra colonial deixou o grupo sem elementos masculinos suficientes, levando à interrupção da atividade.
Houve novas tentativas de reativação, nomeadamente através de Zeca Barão, antigo elemento juvenil do Rancho. Depois do 25 de Abril de 1974, o seu regresso a Portugal permitiu uma nova fase, assumindo o cargo de ensaiador. Mais tarde, o Rancho tornou-se uma secção do Grupo Cultural e Desportivo da Casa do Povo.
Durante vários anos, funcionou como uma escola de folclore, recebendo miúdos, jovens, adultos e formando novas gerações. Criou grupos infantil e juvenil e chegou a atuar pelo País e além-fronteiras, com deslocações a Marrocos, França e ao Parlamento Europeu. Voltou a ganhar vida em 2008, após a entrada de novos corpos gerentes na Casa do Povo. A 8 de dezembro desse ano, exatamente 50 anos após a primeira apresentação pública, o grupo infantil voltou a apresentar-se ao público. O grupo adulto regressaria no início de 2009.
Duas histórias dentro da mesma história
Mais do que datas, a história do Rancho faz-se das pessoas que passaram pelo grupo e que nele deixaram parte da sua vida. Adília Urbano, de 73 anos, entrou no Rancho quando tinha cerca de 20 anos. Mais de 50 anos depois, continua ligada ao grupo. Quando recorda os primeiros tempos, uma das imagens que mais se destaca é a dimensão teve em tempos.
“Chegar e ver um salão cheinho de pessoas” é uma memória que permanece. Segundo Adília, havia cerca de 60 a 70 elementos. Os ensaios juntavam dezenas de pessoas, que se dividiam entre dançarinos e cantores. Hoje, a realidade é bastante diferente. “De 20 a 30 pessoas a ensaiar e hoje chegamos lá e se calhar temos 10”, afirma Adília.
A história de Nelson Martins, de 51 anos, começou ainda mais cedo. Aos 10 anos, entrou para o Rancho por influência de primos que já faziam parte do grupo. Era também “filho da aldeia” e gostava do ambiente do folclore. Na altura, vivia perto de Adília e ia para casa dela apanhar a carrinha que transportava os elementos até Faro, para os ensaios.
Para Nelson, o Rancho era mais do que uma atividade cultural. Era uma das poucas formas que os miúdos da sua idade tinham para sair de casa com a autorização dos pais. A carrinha ia buscar os jovens às suas casas e levava-os aos ensaios, criando uma rotina que fazia parte da vida da comunidade.
“Nessa altura, havia uma disputa muito grande para andar aqui e ter uma rapariga para dançar”, lembra Nelson. A diferença para os dias de hoje é, para ele, evidente. Antigamente, havia procura para entrar no grupo, atualmente é necessário procurar jovens que queiram ficar. A falta de miúdos e jovens tornou-se um dos principais desafios do folclore algarvio.
Passados mais de 40 anos, Nelson e Adília assumem a responsabilidade de manter o grupo vivo. Encarregam-se da escolha o repertório, comandam os ensaios e criam as coreografias que o grupo apresenta por todo o Algarve.
Uma escola onde as gerações se encontram
Apesar das dificuldades, o Rancho da Conceição procura manter as portas abertas a todos. Nelson e Adília afirmam que, nos ensaios, todos trabalham juntos. Não existem grupos separados por idade. Os mais velhos ensinam os mais novos, enquanto estes encontram nos mais experientes uma referência e, muitas vezes, uma ambição: a de poderem dançar ao lado deles.
É uma forma de transmissão da cultura que acontece dentro do próprio grupo. O conhecimento não está apenas nos livros, está nos passos, nas músicas, nos trajes, nas pessoas e na experiência daqueles que já o fazem há anos.
Os ensaios acontecem todas as sextas-feiras, durante todo o ano. Não se trata apenas de preparar uma atuação específica. O trabalho é contínuo e faz parte da própria vida do Rancho. Além de um momento de ensaio, é um momento de comunidade e que já faz parte da rotina daquelas pessoas que sabem que, à sexta-feira, regressam à casa do povo para dançar, cantar e encontrar aquela cara amiga que vêeem todas as semanas.
Também a escolha do repertório varia do contexto. Para festivais, onde o tempo de atuação é mais curto, privilegiam-se apresentações mais vivas e exigentes, com os famosos corridinhos. Em atuações mais longas, como em hotéis, há espaço para bailes de roda e um repertório mais diversificado.
Grande parte das músicas usadas pelos ranchos algarvios tem autores desconhecidos e fazem parte de um repertório comum à região. Cânticos que foram passados se geração em geração pela voz do povo. Algumas músicas e coreografias podem variar de grupo para grupo, de acordo com as recolhas locais, mas há temas que são reconhecidos como parte da cultura algarvia.
Mais do que reproduzir uma dança, o objetivo é aproximar-se do que era antigo e representar, através do folclore, uma realidade cultural que já não existe da mesma forma.
Menos pessoas, mas a mesma vontade
Atualmente, o Rancho reúne cerca de 40 elementos, incluindo miúdos. É uma redução significativa face às sete dezenas de pessoas que chegaram a integrar o grupo em tempos. Para Adília e Nelson, esta diminuição não é um problema exclusivo da Conceição. O folclore algarvio perdeu força ao longo das últimas décadas e, segundo Nelson, também perdeu espaço enquanto atividade cultural. Os grupos são hoje menos numerosos e existem menos oportunidades de atuação.
A dificuldade em atrair jovens é, por isso, uma das principais preocupações. Para Nelson, existe uma perda de ligação das gerações mais novas às raízes culturais da sua terra. O folclore, que outrora podia ser motivo de orgulho por representar a comunidade, é hoje, na sua perspetiva, encarado com pouco interesse e vergonha.
Também a pandemia de COVID-19 contribuiu para agravar uma situação que já vinha mudando. Os hábitos alteraram-se e recuperar a dinâmica anterior tornou-se ainda mais difícil. Ainda assim, o Rancho continua a ensaiar, a atuar e a procurar transmitir aquilo que recebeu das gerações anteriores.
Preservar o que ainda existe
A preservação do folclore não passa apenas pela música ou pela dança. Passa também pelos trajes e pelos objetos que permitem representar os modos de vestir de outros tempos e que carregam toda a identidade visual de uma tradição.
É aqui que o trabalho de Adília ganha particular importância. É ela quem acompanha a preservação dos trajes, numa tarefa que se tornou cada vez mais difícil. Alguns dos materiais utilizados tradicionalmente já não existem ou deixaram de ser facilmente encontrados no Algarve.
Segundo Adília, há tecidos que têm de ser procurados no norte do País, onde ainda subsistem mais lojas antigas e de materiais ligados às tradições populares.
Atualmente, o grupo prepara-se para a possibilidade de uma eventual entrada do Rancho na Federação Portuguesa de Folclore. Uma missão que poderá trazer uma exigência maior nesta área. O grupo está a ponderar a filiação e sabe que isso implica estudar melhor os trajes, os materiais, os comportamentos e a forma como a representação do passado é feita.
Ao mesmo tempo, surgiu outra oportunidade de projeção internacional. O Rancho foi convidado para participar num festival de folclore em Cannes, França, onde vão estar presentes grupos internacionais. A participação depende da capacidade de conseguir os apoios necessários, mas representa uma oportunidade para levar mais longe o nome da Conceição, da Casa do Povo e do município de Faro.
No fundo, os objetivos continuam a ser semelhantes aos que estiveram na origem do grupo: representar uma terra e preservar uma cultura. Mais de seis décadas após a sua fundação, o Rancho da Conceição já atravessou períodos de grande crescimento, paragens, recomeços e mudanças geracionais. Adília e Nelson são testemunhos vivos dessa continuidade.
Hoje são menos, mas continuam a reunir-se todas as sextas-feiras. Continuam a dançar músicas que atravessaram gerações. Continuam a vestir uma história que pertence à Conceição e ao Algarve. E é talvez aí que reside a maior força do Rancho: não apenas em preservar o que existiu, mas em tentar garantir que ainda haverá quem queira aprender, dançar e contar essa história no futuro.








