A criatividade não conhece fronteiras e, para Eric Ventker, essa é uma realidade do quotidiano. O artista alemão divide-se entre Düsseldorf, na Alemanha, e o Algarve, tendo encontrado em Faro, e sobretudo em Estoi, um espaço de tranquilidade e inspiração para a sua arte.
Aos 30 anos, Eric trabalha entre a pintura, o graffiti, os murais e projetos por encomenda, num percurso artístico que começou cedo, ainda dentro de casa. Filho de um pintor, cresceu no atelier do pai, num ambiente onde a arte fazia parte do quotidiano. Mas foi através de outra paixão que encontrou uma das primeiras formas de expressão que viriam a marcar o seu percurso: o skate.
Aos 11 anos, começou a frequentar um skatepark onde era permitido fazer graffiti nas paredes e foi a própria mãe, preocupada com as possíveis quedas, que sugeriu que experimentasse antes a pintura. Comprou-lhe as primeiras latas de spray e Eric começou a pintar. “Era diferente do que o meu pai fazia”, recorda. A pintura figurativa surgiu rapidamente nesse processo e, mais tarde, voltou às telas, continuando a experimentar diferentes materiais e suportes.
O percurso académico viria depois. Em 2020, concluiu a formação em Belas-Artes, em Düsseldorf. Desde então, o seu trabalho continua a desenvolver-se entre a pintura de estúdio e a intervenção em espaços maiores.
Chegada a Faro por acaso
A ligação ao Algarve começou de forma inesperada. Em 2015, Eric visitou Portugal pela primeira vez, numa viagem de férias. Passou cerca de dez dias em Lisboa e, no final, apanhou um autocarro para Faro, de onde partiria o voo de regresso à Alemanha.
Chegou à cidade à meia-noite e, ao sair da estação, pediu indicações a algumas pessoas. Eram portugueses, naturais de Faro. Em vez de se limitarem a indicar-lhe o caminho para o aeroporto, convidaram-no para beber uma cerveja e comer qualquer coisa naquela noite. O encontro acabou por mudar a relação de Eric com a cidade. “Comecei a gostar muito mais de Faro”, conta. “Estava realmente a apaixonar-me pelo lugar e pensei: ‘Quero mesmo voltar’.”
Foi através de pessoas que conheceu na cidade que começou a aproximar-se da comunidade artística local. Aos poucos, Faro e o Algarve deixaram de ser apenas um destino de passagem e passaram a fazer parte do seu percurso artístico. Eric encontrou na região espaço para desenvolver projetos maiores, sobretudo murais, muitas vezes realizados de forma independente. A intenção era construir um portefólio que lhe permitisse candidatar-se a festivais e, simultaneamente, desenvolver o trabalho de estúdio.
Para o artista, o Algarve oferecia algo que ultrapassava as oportunidades concretas: oferecia uma atmosfera. “Sinto que Faro e a região à volta dão muita inspiração e boa energia”, explica. Na sua perspetiva, a cidade apresenta uma abertura particular à arte e uma resposta positiva por parte das pessoas, embora defenda que poderiam existir ainda mais oportunidades e espaços para artistas.
View this post on Instagram
Em Estoi tem tempo para pensar
É em Estoi que a relação com o Algarve ganha uma dimensão mais pessoal. Eric não se apresenta como residente permanente, mas é ali que fica quando está na região, com a namorada, e é também ali que desenvolve parte do seu trabalho. A ligação começou através de um amigo que vive perto da aldeia. “Gosto da zona porque é muito calma e posso fazer caminhadas”, conta. “É tranquilo e tenho tudo o que preciso.”
Entre os pequenos prazeres que associa a Estoi estão as esplanadas e a possibilidade de simplesmente parar. “Gosto muito dos lugares onde as pessoas estão simplesmente sentadas a beber alguma coisa.” Essa tranquilidade tem consequências diretas no processo criativo. Enquanto a Alemanha está associada ao trabalho comercial e a um quotidiano mais acelerado, o Algarve tornou-se um lugar onde Eric consegue abrandar.
“Na Alemanha, sinto que estou sempre a correr de um ponto para o outro. Aqui é definitivamente mais calmo.” E essa diferença é importante para quem pinta. Para Eric, criar não começa quando pega num pincel. Antes disso, existe todo um processo de observação, reflexão e organização. “Preciso de muito tempo para trabalhar nas ideias e refletir sobre o que tenho de fazer”, explica. “Na maior parte das vezes, pintar é sobre tudo o resto menos pintar.”
Quando está por Portugal, vive em Estoi com a namorada Catarina Perez. Conheceram-se através de amigos e apaixonaram-se, dando a Eric mais um motivo para regressar ao Algarve. Além de namorada, Catarina é também a sua musa, já tendo inspirados alguns dos murais que se caracterizam pelas cores vibrantes e retratos realistas.
View this post on Instagram
Pintar o movimento
No centro da obra de Eric está uma ideia recorrente: o movimento. As suas pinturas não procuram representar um instante congelado, mas aproximar o espectador de um momento que ainda está a acontecer. Foi esse o conceito por detrás de “Entretanto”, a exposição individual que apresentou no Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), em Faro, reunindo trabalhos desenvolvidos ao longo dos anos.
O título contém um jogo de palavras. “Entretanto” pode ser entendido como algo que acontece, mas Eric separou o termo para explorar a ideia de “entre tanto”, para abordar a imensidão que insiste entre acontecimentos. “Estou a pintar situações que estão em movimento”, explica. “A ideia é fazer com que o espectador se aproxime de um momento, que nunca é apenas um frame. Está sempre em movimento.”
É uma ideia que atravessa o trabalho que está a preparar para a temporada da nova edição do Open Studios Faro. Entre as novas peças encontra-se uma tela iniciada em 2022, que foi sofrendo transformações ao longo do tempo. A obra nasceu de um tríptico com três figuras de malabaristas, representadas em posições diferentes. Mais tarde, decidiu cortar as imagens e reorganizá-las numa única pintura. O resultado junta os diferentes momentos numa composição onde o malabarista parece mover-se enquanto as bolas permanecem suspensas no ar.
Do mural ao azulejo
A amplitude do trabalho de Eric também se revela nos suportes que escolhe. Se os grandes murais permitem trabalhar à escala da arquitetura, as experiências mais recentes levaram-no a um objeto associado à cultura portuguesa: o azulejo.
O projeto surgiu através de Toma, co-fundadora do Open Studios Faro, que o convidou a participar num trabalho para o evento, no qual os artistas iriam pintar um azulejo. Era a primeira vez que Eric trabalhava este material, apesar de há muito ter curiosidade sobre a técnica. Pouco tempo antes, durante uma viagem a Maiorca, tinha conhecido outro artista de graffiti que trabalhava há cerca de dez anos na oficina dos pais, especializada em pintura de azulejos.
“Adorei e pensei: ‘Um dia tenho de fazer isto’”, conta. A oportunidade apareceu pouco depois. “Quando os via na cidade, olhava sempre para eles mais de perto, mas nunca compreendia como eram feitos. Agora que sei, é diferente do que esperava, mas é incrível.”
O futuro que Eric imagina mantém-se dividido entre duas escalas. Por um lado, quer continuar a desenvolver o trabalho de estúdio, criando conjuntos de obras que possam ser apresentados em exposições. Por outro, espera levar a sua pintura para paredes cada vez maiores. “Quero pintar trabalhos de estúdio que funcionem bem juntos e pintar paredes tão grandes quanto possível.”
A imagem que utiliza para descrever esse sonho é reveladora: fechar os olhos e imaginar-se numa máquina, algures, a pintar um mural no quarto andar de um edifício. Depois, regressar ao estúdio e ter tempo para desenvolver as próprias ideias. É esse equilíbrio que parece definir o caminho que está a construir entre a Alemanha e Portugal: a dimensão profissional e comercial de um lado, o espaço de experimentação e reflexão do outro; as grandes paredes e as pequenas telas; a cidade acelerada e a tranquilidade de Estoi.
Quando lhe é pedido que resuma o seu trabalho em três palavras, Eric hesita. Primeiro escolhe “pessoal”. Depois “direto” e “honesto”, mas percebe que as duas últimas estão demasiado próximas. A terceira palavra acaba por surgir quase naturalmente: “moving, em movimento.”
Talvez seja a palavra que melhor define o seu percurso. O movimento das figuras nas telas, as mudanças entre diferentes momentos, materiais e escalas — mas o seu próprio percurso entre dois países, duas cidades e duas formas de viver a arte. Eric não parece interessado em fixar-se num único lugar ou numa única linguagem. Tal como as figuras que pinta, permanece entre momentos, em transformação contínua. E é talvez nesse espaço — precisamente nesse “entretanto” —que a sua obra encontra a sua identidade.
Carregue na galeria para conhecer a arte de Eric Ventker.








