cultura

Andrew Garfield odiou as corridas e as batalhas na lama. Os bastidores caóticos de “A Revolta”

O novo épico de Paul Greengrass recria a insurreição de 1381 com milhares de figurantes, batalhas e drama.

Andrew Garfield passou boa parte das filmagens de “A Revolta” coberto de lama, a lutar no meio de milhares de figurantes e, para seu desgosto, a correr. Muito. Gostou das batalhas e do caos criado por Paul Greengrass, mas descobriu uma coisa menos heroica sobre si próprio.

“Não sou muito bom a correr e tenho de fazer muitos sprints para tentar salvar pessoas. Esses eram os dias em que ficava mais zangado com o Paul”, brincou numa entrevista à “Moviefone”.

Aos 43 anos, Garfield regressa esta quinta-feira, 17 de setembro, aos cinemas portugueses num papel muito diferente dos heróis que já interpretou. Em “A Revolta”, é Ploughman, um camponês arrastado para a Revolta dos Camponeses de 1381, uma das maiores insurreições populares da história inglesa.

O ator não precisou, porém, de aprender a lutar como um guerreiro medieval. Era suposto que os golpes fossem desajeitados e que Ploughman parecesse alguém a tentar sobreviver, não um soldado treinado. “Era tosco e caótico. O caos era intencional”, explicou. “Não havia uma enorme pressão para sermos especialistas, muito precisos ou elegantes.”

Essa falta de experiência acompanha a transformação da personagem. Ploughman começa por ser um homem comum, habituado a trabalhar a terra, e vai descobrindo aquilo de que é capaz à medida que a violência toma conta da sua vida. “Há uma evolução ao longo da história. No final, ele tem uma relação muito diferente com a violência e com a sua utilização.”

A história começa, porém, longe das batalhas. Ploughman perdeu a mulher e os filhos durante a peste e tenta reconstruir a vida sozinho. Quando surge um novo imposto destinado a financiar a guerra de Inglaterra contra França, não consegue provar aos cobradores que a família morreu. Recusa-se a pagar e agride um dos homens do rei. O confronto empurra-o para uma revolta que levará milhares de pessoas em direção a Londres.

Ao contrário de John Ball, interpretado por Jamie Bell, ou Wat Tyler, vivido por Cosmo Jarvis, Ploughman nunca existiu. Foi criado para o filme e inspirado no arquétipo do camponês medieval, com referências a “Piers Plowman”, poema alegórico de William Langland escrito no século XIV.

É através desse homem anónimo que Garfield entra numa história real. E é também através dele que “A Revolta” tenta aproximar acontecimentos separados do presente por mais de seis séculos.

Durante a promoção, o ator resumiu essa leitura numa frase que rapidamente chamou a atenção. “Espero que, se algum bilionário vir o filme, fique borrado de medo”, afirmou à “CNN”.

 

Paul Greengrass partiu de uma ideia semelhante quando começou a escrever o filme. O realizador encontrou na Inglaterra medieval uma sociedade onde uma pequena elite protegia os seus privilégios enquanto grande parte da população sentia que trabalhava dentro de um sistema construído contra si.

O contexto histórico ajuda a perceber porquê. A Peste Negra matou uma enorme parte da população europeia e provocou uma escassez de trabalhadores. Os sobreviventes ganharam maior margem para exigir melhores salários, mas as autoridades inglesas procuraram limitar esses aumentos e impedir que procurassem melhores condições noutros locais.

O descontentamento acumulou-se até explodir em 1381. No filme, Ploughman não começa como revolucionário nem pretende mudar Inglaterra. É empurrado para a revolta depois de perder quase tudo e de perceber que nem a morte da família o livra das exigências dos cobradores.

Isso não significa que Greengrass transforme os revoltosos em heróis sem falhas. A insurreição histórica ficou também marcada por pilhagens, execuções e pelo assassinato de comerciantes flamengos. O filme coloca Ploughman perante essa contradição: até onde pode ir alguém que começa por resistir à violência antes de acabar a praticá-la?

Para dar escala a essa transformação, a produção trocou Inglaterra pela Baviera. No outono de 2025, partes de Nuremberga foram transformadas numa cidade inglesa do final do século XIV. As filmagens passaram ainda pela Igreja de São Sebaldo, pelo Museu ao Ar Livre da Francónia, em Bad Windsheim, e pela fortaleza de Lichtenau.

A produção chegou a procurar cinco mil figurantes para construir as multidões que avançam sobre Londres. Garfield filmava rodeado de centenas de pessoas, armas, lama e uma equipa de duplos chegada de Budapeste, responsável por criar confrontos que parecessem descontrolados.

Greengrass queria recuperar a dimensão de épicos como “Gladiador” e “Braveheart”, mas sem transformar o protagonista num Maximus medieval. Ploughman sabe trabalhar a terra. Não sabe comandar um exército.

Garfield partilhou muitas dessas sequências com Thomasin McKenzie, que interpreta Alyce, outra personagem criada para o filme. Depois de sofrer uma série de perdas e abusos, junta-se aos revoltosos movida, segundo a atriz, pela “raiva”, “dor” e “luto”, além da sensação de ter sido traída pela Igreja e por quem deveria protegê-la.

À volta das duas personagens fictícias surgem figuras que existiram. Jamie Bell interpreta John Ball, o pregador radical associado à revolta; Cosmo Jarvis é Wat Tyler, um dos seus líderes; e Woody Norman assume o papel de Ricardo II, que tinha apenas 14 anos quando milhares de revoltosos chegaram a Londres.

Do Homem-Aranha para um camponês sem nome

Interpretar um homem sem identidade histórica também encaixa numa carreira em que Garfield tem alternado entre grandes produções de Hollywood e personagens mais contidas.

Nascido em Los Angeles em 1983 e criado em Inglaterra, começou no teatro e na televisão britânica antes de ganhar projeção internacional com “A Rede Social”, de David Fincher, em 2010. Dois anos depois tornou-se Peter Parker em “O Fantástico Homem-Aranha”.

Desde então, passou por “Silêncio”, de Martin Scorsese, “O Herói de Hacksaw Ridge”, “tick, tick… BOOM!”, “We Live in Time” e “After the Hunt”, além de ter regressado ao universo da Marvel em “Spider-Man: No Way Home”.

Em “A Revolta”, não há superpoderes nem sequer um nome próprio. Quando lhe perguntam quem é, Ploughman responde através daquilo que faz: trabalha a terra.

É essa ausência de uma identidade heroica que torna a transformação mais importante. Garfield teve de perceber como um homem que nunca se viu como violento começa a aceitar o uso da força e, depois, como tenta descobrir onde colocar o limite.

Por isso, a frase sobre os bilionários funciona como provocação, mas também resume aquilo que Garfield encontrou numa história com mais de 600 anos. Para ele e para Greengrass, “A Revolta” não interessa apenas pelo que aconteceu em 1381, mas pelas perguntas que deixa sobre desigualdade, poder e o momento em que uma população deixa de aceitar as regras que lhe são impostas.

Carregue na galeria para ver os filmes que chegaram às plataformas de streaming este mês. 

ARTIGOS RECOMENDADOS