Quando uma peça de roupa acaba no lixo, perde a possibilidade de ter uma nova vida. Num tempo em que o fast fashion acelerou os ritmos de produção e consumo, tornando cada vez mais comum a existência de peças descartáveis de curta duração e material de baixa qualidade, projetos assentes na reutilização e na economia circular ganham uma nova importância.
Em Faro, a Konceito.R nasceu há 15 anos com essa ideia: olhar para o que já existe e encontrar novas possibilidades. Situada na Rua Conselheiro Bívar, na baixa da cidade, a loja reúne roupa em segunda mão, peças de diferentes marcas e criações resultantes de processos de upcycling, um processo criativo de transformar roupas indesejadas em novos itens com maior valor, utilidade ou qualidade estética, sem destruir a estrutura original.
Entre cores, padrões e diferentes estilos, o espaço procura mostrar que aquilo que já foi usado não tem necessariamente de perder valor. Pelo contrário, pode voltar a circular, ser transformado e encontrar um novo dono.
Uma paixão pela moda que começou cedo
Por detrás da Konceito.R está Cristina Guerreiro, natural do Alentejo, mas a viver em Faro há mais de duas décadas. A relação com a moda começou ainda durante a infância, muito antes de imaginar que viria a criar um projeto próprio. Entre bonecas de papel e roupas desenhadas à mão, nasceu um interesse que acabou por acompanhá-la ao longo da vida. “Desde que me lembro que desenhava roupas para as bonecas. Passava horas a fazer isso”, recorda Cristina.
A costura entrou cedo nesse percurso. Com a ajuda da avó, Cristina começou a experimentar a criação de peças. Por volta dos 12 anos, chegou a transformar um lençol em calças, numa experiência que hoje reconhece como uma das suas primeiras experiências de upcycling, ainda sem conhecer o conceito.
Mais tarde, formou-se em Arte e Design, pela Universidade de Évora. A formação juntou-se a uma vontade antiga de trabalhar com roupa e reutilização. Cristina conta que sempre teve contacto com lojas de segunda mão durante as suas viagens e que foi amadurecendo a ideia de criar um projeto semelhante em Faro. Em setembro de 2011, abriu a primeira Konceito.R, inicialmente dedicada à roupa em segunda mão. “Já andava com este projeto na cabeça há muito tempo. Fui adiando até que, por fim, resolvi abrir a minha própria loja.”
Quando a segunda mão ainda era novidade em Faro
A chegada da Konceito.R aconteceu numa altura em que comprar roupa em segunda mão ainda estava longe de ter a aceitação atual. A primeira loja abriu perto do Aboim Ascensão, como uma forma de Cristina dar uma nova vida às roupas do seu armário.
“Abri a loja com roupa minha, porque era muito consumidora. Ainda sou, mas agora consumo mais em segunda mão”, diz com um sorriso. “Tinha muita roupa, que costumava dar, até que pensei ‘vou abrir uma loja’. Era pequena, não tinha muita coisa”, conta, enquanto recorda a reação inicial dos farenses. “A receção não foi das melhores porque as pessoas não estavam habituadas ao conceito da segunda mão. Entravam na loja, perguntavam-me quem é que tinha morrido, tinham nojo. Foi um pouco difícil”.
A fundadora recorda que os primeiros clientes eram muitas vezes pessoas com profissões estáveis e habituadas a viajar, que já conheciam este conceito de outros países. Com o passar dos anos, porém, a perceção foi mudando. A preocupação ambiental, a discussão sobre os efeitos da indústria da moda e o crescimento do interesse pela sustentabilidade ajudaram a aproximar novos públicos, sobretudo entre as gerações mais jovens.
“Acho que o pessoal mais jovem já está a perceber o conceito da roupa usada, que não é uma questão de dificuldades económicas, mas de sustentabilidade.” A mudança para a atual localização, no centro de Faro, há cerca de dez anos, trouxe também uma alteração no perfil dos clientes. A loja passou a receber mais turistas e estrangeiros familiarizados com o mercado de segunda mão, mas também pessoas de outras zonas do Algarve.
A Konceito.R funciona através de um modelo de consignação. As peças são entregues por pessoas da região e, quando são vendidas, o proprietário recebe uma percentagem do valor. A loja não compra grandes lotes de roupa, nem recebe peças de origem desconhecida. É uma lógica de economia circular assente na comunidade e na reutilização do que já existe.
Ao longo dos anos, algumas pessoas mantiveram uma relação contínua com a loja, levando regularmente roupa para consignação. Entre as peças recebidas encontram-se também artigos que nunca chegaram a ser usados, permanecendo ainda com as etiquetas originais.
“Há pessoas que continuam a trazer roupa há 15 anos”, conta Cristina. “Às vezes não imaginamos, mas há pessoas que têm mesmo muita roupa, inclusive de marcas boas que nunca foram usadas, vêm com as etiquetas das lojas.”
Mas a segunda mão foi apenas o início. Ao reparar que algumas peças permaneciam sem saída por estarem fora das tendências ou por apresentarem pequenos defeitos, Cristina começou a transformá-las. O upcycling foi crescendo progressivamente dentro do projeto e, há cerca de cinco anos, passou a dedicar-se a esta área a tempo inteiro.
“Começámos como loja de segunda mão, mas ia vendo peças que eram giras, estavam em boas condições mas não eram vendidas por estarem fora de moda. E comecei a transformá-las.”
Da loja à criação de moda sustentável
Para Cristina, prolongar a vida das peças é uma forma de enfrentar o desperdício associado à indústria da moda. “Antigamente, existia a moda Outono/Inverno e Primavera/Verão. Agora, de quatro em quatro semanas, a coleção nas lojas muda e surgem novas tendências”, afirma. “É isto que o fast fashion quer: criar urgência para usar aquele modelo, mas daqui a três meses já está mais que ultrapassado, sendo necessário comprar outro para estar na moda.”
A fundadora chama ainda a atenção para a crescente presença da chamada ultra fast fashion e para a quantidade de peças de baixa qualidade que chegam ao mercado. Na Konceito.R aparecem artigos praticamente novos, que foram comprados por impulso e rapidamente deixaram de ser desejados pelos consumidores.
“Aparecem cada vez mais peças sem qualidade. Essa é a grande diferença que tenho sentido.” É neste contexto que Cristina defende uma mudança na relação com a roupa: comprar menos, prolongar o uso das peças e procurar alternativas antes de as considerar um resíduo. A ideia que está na base do projeto é que a peça de roupa mais sustentável é aquela que já foi produzida.
Atualmente, a atividade da fundadora ultrapassa o espaço da loja. Cristina apresenta as suas próprias criações de upcycling e participa em iniciativas dedicadas à moda sustentável. Entre elas está a Circular Sustainable Fashion Week, em Madrid, onde participa anualmente. “É uma das maiores semanas da moda sustentável da Península Ibérica”. O objetivo de Cristina passa por trazer mais projetos de upcycling e ao ecodesign para a Konceito.R., mas sem abandonar a roupa em segunda mão.
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Esta vontade de aproximar a moda sustentável de novos públicos está também na origem do NOVAE – Festival Internacional de Moda, Arte e Natureza, que decorre de 25 a 27 de setembro no JALI – Galeria de Arte, em Silves.
Organizado por Cristina Guerreiro, Carmen Garrido e Marta Vinhas, o festival pretende criar um ponto de encontro entre moda circular e regenerativa, arte, música, performance, natureza, gastronomia e bem-estar. Ao longo de três dias, Silves recebe criadores, artistas e projetos portugueses e internacionais, numa programação que procura colocar o público não apenas como espetador, mas como participante.
“Criar. Conectar. Transformar.” é o princípio que orienta o evento, que inclui performances, concertos, workshops, experiências de movimento e bem-estar, gastronomia, degustação vínica, conversas e diferentes propostas ligadas à moda.
O último dia, 27 de setembro, será marcado pelo desfile NOVAE, dedicado à criação circular e regenerativa, seguido de DJing. Entre os projetos participantes encontram-se a própria Konceito.R, acompanhada pela SENSIHEMP, Libelinha, Veso Upcycling, Taller Qualquin, Raja Pura e AfroWema, do Quénia, numa programação que procura cruzar diferentes formas de pensar e criar.
A música, cerâmica e performance ajudam a ampliar o festival para lá da moda, numa proposta que pretende afirmar o Algarve como território de criação contemporânea e estabelecer ligações com outros territórios e projetos internacionais.
Para Cristina, o NOVAE representa uma ambição que vai além da própria Konceito.R: incentivar cada vez mais ao consumo sustentável no Algarve. Depois de 15 anos a trabalhar com roupa usada e reutilização em Faro, o projeto ganha agora novas dimensões.
A Konceito.R nasceu quando a segunda mão ainda era uma realidade pouco familiar para muitos consumidores da cidade. Hoje, a loja procura continuar a adaptar-se, mantendo a sua base na reutilização, mas abrindo espaço à criação, ao upcycling e à organização de iniciativas ligadas à sustentabilidade. No fundo, a ideia mantém-se a mesma desde o início: o que parece ter chegado ao fim pode, com criatividade, ser apenas o começo de uma nova história.
Carregue na galeria para conhecer algumas das peças à venda na Konceito.R.








