Há negócios que acaba por desaparecer ao longo dos anos. E depois há aqueles que, com o tempo, passam a fazer parte do legado de famílias. Humberto Gaspar, de 53 anos, acredita que O Coreto, junto à Marina de Faro, é um desses casos.
O restaurante foi fundado em 1986 por Jorge Gaspar, pai de Humberto. Muito antes de se tornar o que é hoje, o espaço começou por ser uma gelataria. Quase quatro décadas depois, Humberto está à frente da casa que recebeu como herança e enfrenta o desafio de preservar o que herdou, enquanto tenta transformá-lo no que acredita que pode ser.
Natural de Faro, o pai de Humberto viveu parte da sua vida em Angola. Quando regressou a Portugal, abriu a Velvitchia, uma gelataria que deu início ao percurso da família na restauração e ao qual continuam até hoje ligados. “O nosso ADN são os gelados”, explica Humberto.
Mas a gelataria tinha uma limitação evidente: era um negócio muito dependente do verão. Para fugir à sazonalidade, em 1986 Jorge comprou o espaço conhecido como as antigas Pirâmides, no Jardim Manuel Bivar.
Dos gelados às antigas Pirâmides
Tratava-se de uma pastelaria construída junto ao coreto do jardim na baixa de Faro, um lugar que fazia parte da memória da cidade. O nome acabou por ficar e foi ali que nasceu O Coreto. Em 2004, o negócio mudou-se para a atual localização, junto à Marina de Faro.
Mudou o espaço, mas não mudou a identidade. Mantiveram o nome e a mesma empresa, mas foram mudando o negócio. O que começou como café, evoluiu para snack-bar e foi incorporando diferentes valências, numa espécie de extensão natural da história da família e do que os clientes procuravam.
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De filho do patrão a chefe
Quando o pai morreu, em 2018, Humberto assumiu a gestão do restaurante. O problema é que, apesar de ter crescido naquele ambiente e de conhecer “todos os cantos à casa”, nunca tinha sido preparado para liderar uma empresa daquela dimensão. Tudo porque, durante 20 anos, trabalhou como vendedor de automóveis.
Conhecia o negócio por dentro, tinha opiniões sobre a forma como era gerido e, como muitos filhos, achava que algumas coisas poderiam ser feitas de outra forma. “Era o filho do patrão”, diz Humberto, com um sorriso atrapalhado.
Ainda recorda os conselhos do pai, quando o mesmo dizia: “Deixa estar que, quando isto for teu, logo vais ver o que custa gerir tantas pessoas.” Anos mais tarde, Humberto diz perceber as palavras do pai e afirma: “liderar pessoas é a parte mais difícil da restauração”.
Quando assumiu O Coreto, a empresa tinha cerca de 20 trabalhadores. Hoje já contam com 56 funcionários. O negócio cresceu e a faturação triplicou. E aquilo que parecia, à distância, ser apenas a continuação de um negócio familiar revelou-se um exercício muito mais complexo: liderar pessoas, definir uma estratégia, perceber o mercado e decidir que identidade queria para a casa.
A pandemia e a procura por uma identidade
Foi durante a pandemia que Humberto começou a procurar uma resposta para uma pergunta essencial: afinal, qual seria o futuro d’O Coreto? Na altura, tinha ainda relativamente pouco tempo à frente da empresa. O restaurante estava fechado, havia dezenas de trabalhadores para gerir e um destino incerto.
Humberto aproveitou aquele período para estudar. Recorda algumas madrugadas que passava no Coreto a ler “As 16 Leis do Sucesso”, de Napoleon Hill, que nomeia como a sua “bíblia”. A leitura ajudou-o a perceber que não precisava de transformar O Coreto em algo completamente diferente. Precisava, antes, de perceber o que a casa já era. E foi aí que chegou ao conceito.
“O bistrô é um restaurante que está aberto desde manhã à noite. É um sítio onde se algo come mais rápido”, afirma. Um espaço com a cozinha sempre a funcionar, com pequenos-almoços pela manhã, almoço, bar, música ao vivo ao final do dia, cocktails e, depois, jantar e sobremesas. A ideia começou a orientar as suas decisões seguintes.
Pequenos passos para mudar uma casa com quase 40 anos
Para Humberto, a transformação não aconteceu de um dia para o outro, mas foi uma construção feita de pequenos passos. Uma das ideias que retirou do livro de Napoleon Hill foi precisamente essa: fazer todos os dias o melhor possível, mantendo o foco no objetivo e avançando gradualmente.
A estratégia, garante, está hoje delineada para os próximos dois anos. Mas transformar O Coreto não significa apagar o que veio antes. Pelo contrário. Humberto diz que uma das diferenças entre si e o pai está na forma como olha para o negócio. “Vejo o Coreto como um legado”, afirma. “Como se isto ainda fosse do meu pai e tivesse que prestar-lhe contas.” É essa ideia de legado que parece estar no centro das suas decisões.
O objetivo não é simplesmente aumentar a faturação. O foco está na satisfação do cliente. Se há pratos que não estão a resultar, saem da carta. Se o mercado muda, a casa adapta-se. Se os clientes dão sinais de que querem outra coisa, a equipa procura responder.
A ideia de família não termina nos laços de sangue. Há colaboradores que fazem parte da história do Coreto há décadas. Sandra, por exemplo, trabalha na casa há cerca de 22 anos e já estava com a família durante a gestão de Jorge. “É família”, diz Humberto.
Hoje, com 56 colaboradores, gerir uma equipa tornou-se uma das suas maiores responsabilidades. A restauração enfrenta dificuldades em encontrar profissionais com experiência e cultura de hotelaria, e a empresa acabou por assumir um papel na formação de quem chega.
Há aulas de português e inglês para trabalhadores imigrantes, formação e um esforço constante para criar uma equipa mais organizada e integrada. A mudança de pessoal fez parte da transformação do restaurante.
Humberto fala disso com gratidão. Diz que é raro o dia em que não pratica a gratidão e que se sente “uma pessoa muito afortunada”. É uma visão pouco convencional da gestão, mas coerente com a forma como descreve o negócio: não como uma máquina financeira, mas como uma comunidade de pessoas que precisa de fazer funcionar em conjunto.
Recuperar os farenses para o Coreto
Durante muitos anos, O Coreto ficou associado sobretudo aos visitantes estrangeiros. Agora, Humberto quer mudar essa perceção e o desafio passa por conquistar novamente os habitantes de Faro.
Há uma razão histórica para essa dificuldade: para muitos farenses, O Coreto continua associado à antiga geladaria e ao café. O hábito pesa. E transformar essa memória num novo posicionamento leva tempo. “Os farenses têm muita dificuldade em olhar para nós como um restaurante”, explica.
A estratégia passa também por aproximar a casa da comunidade local. O Coreto apoia clubes e associações da região e procura estar presente na vida da cidade. A ambição é clara: que o espaço deixe de ser visto apenas como um lugar para turistas e volte a ser, também, um lugar dos habitantes.
Esta transformação também passa pela mesa. Embora a identidade de bistrô permita uma carta diversificada, que vai desde os hambúrgueres às pizzas, massas e outros pratos mais rápidos, Humberto quer reforçar cada vez mais a ligação à região.
O arroz de bacalhau fresco com amêijoas da Ria Formosa (19,80€) é apontado como o prato de eleição. Há também linguini com amêijoas (18€), paella de marisco (40,80€), cataplanas (48,80€), arroz de polvo (38,50€) e mais que pode conferir no menu.
A direção passa por continuar a introduzir produtos e sabores da região. O arroz de bacalhau e o arroz de polvo entraram recentemente na carta, que poderá incluir brevemente robalo fresco. É uma mudança subtil, mas importante: de um espaço que durante anos foi percebido sobretudo como café e geladaria para um local que se quer afirmar com uma identidade gastronómica própria.
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O próximo Coreto
Ainda assim, talvez a maior transformação ainda esteja por acontecer. O plano passa por uma remodelação profunda, mas a próxima versão d’O Coreto será, paradoxalmente, mais pequena. A ideia é reduzir a dimensão do negócio, para o tornar mais acolhedor e aumentar a componente de restauração. Menos volume, mais qualidade. A razão é simples: quando a casa está demasiado cheia, a qualidade do serviço sofre.
Manter uma operação de grande dimensão durante todo o ano, com 56 colaboradores e todos os encargos associados, obriga a uma gestão difícil entre sustentabilidade financeira e qualidade do serviço. Humberto quer encontrar outro equilíbrio. Um Coreto mais pequeno, mais bonito, mais acolhedor e mais concentrado na comida dedicada aos farenses.
É talvez aqui que a história de Humberto e O Coreto ganha maior significado. A sucessão familiar poderia significar simplesmente continuar o trabalho do pai. Mas Humberto parece entender o legado de outra forma: não manter tudo exatamente como estava, mas perceber o que deve permanecer e o que precisa de mudar.
O nome e a empresa ficam, os gelados da família continuam, bem como a memória do pai, que está bem presente. Mas a casa está a mudar de identidade, de escala e de ambição. Quase 40 anos depois de o pai de Humberto ter fundado O Coreto, a história da família continua a escrever-se no mesmo lugar.
Hoje, o filho mais velho de Humberto, de 19 anos, já trabalha no restaurante como empregado de mesa. Agora é ele “o filho do patrão”. Só que, desta vez, é Humberto quem segura o leme.
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