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Aos 84 anos, continua a trabalhar na pastelaria que os pais abriram há 70 anos em Faro

Ângelo Dias continua à frente de um dos espaços mais antigos da cidade. “Quando fecha ao domingo, falta-me alguma coisa”.

Há lugares que deixam de ser apenas estabelecimentos comerciais e passam a fazer parte da identidade de uma cidade. Em Faro, um pastelaria, das mais antigas da cidade ainda em funcionamento e a mais antiga da baixa, é um desses lugares. Há sete décadas nas mãos da mesma família, a Gardy permanece como um dos espaços de eleição dos farenses e de quem passa pela cidade. 

A história da pastelaria começou em meados dos anos 50, quando José Dias e a mulher, Maria José Dias, abriram o espaço, em 1956. A família era originária de Tavira e, apesar de terem abandonado a cidade, trouxeram alguns dos conhecimentos da doçaria fina tavirense. Entre as especialidades que chegaram com a família estavam os famosos Folhados de Tavira, que continuam a ser produzidos na casa. O Dom Rodrigo, os doces de amêndoa e, na época natalícia, o bolo de amêndoa e gila, as filhoses e as empanadilhas completam uma oferta que ajudou a construir a reputação do espaço na cidade.

Ângelo Dias, filho dos fundadores, tinha apenas 10 anos quando se mudou com os pais de Tavira para Faro, onde se mantém até hoje. A sua vida deu muitas voltas, levando-o a emigrar para a Venezuela na época do Estado Novo. No entanto, como um bom filho sempre retorna a casa, regressou a Faro e, na década de 80, comprou a pastelaria aos pais.

Uma vida dedicada à Gardy

Atualmente com 84 anos, Ângelo mantêm-se na gerência do negócio juntamente com a mulher, Salomé Dias. Seguiu o caminho dos pais e manteve a pastelaria a funcionar sempre com casa cheia. A responsabilidade para tal tarefa não era surpresa para Ângelo, já que cresceu a ver os pais a dedicarem a vida ao trabalho.

Ainda recorda os tempos em que o pai abria a pastelaria de manhã e só saía de madrugada. “É um trabalho muito duro”, afirma. A dedicação à casa acabou por passar para a geração seguinte. Além de todo o trabalho que tem de ser feito antes de as portas abrirem, é aqui que acontece toda a preparação dos bolos e doces servidos na Gardy, que tem fabrico próprio numa área no piso superior. Mas nem sempre foi assim.

Durante muitos anos, quando os pais de Ângelo estavam à frente do negócio, a produção era feita em casa. José e Maria José Dias preparavam os doces na cozinha de casa e, depois, levavam-nos para a pastelaria, onde eram vendidos. Uma rotina familiar que marcou os primeiros anos da Gardy como um negócio caseiro em todos os sentido.

Atualmente, Ângelo já contabiliza mais de 40 anos na Gardy e confessa que, aos domingos, quando fecha as portas, sente que lhe “falta alguma coisa”. O espaço tornou-se mais que um trabalho ou uma rotina: tornou-se parte da sua vida. 

O proprietário recorda que, quando os pais abriram a pastelaria na Rua Santo António, apesar de ser a mais movimentada de Faro, estava longe do corrupio atual. “Só havia uma ou duas mercearias, um café, não havia tanta coisa como há hoje”, relata.

Atualmente, Ângelo e a mulher encarregam-se da gestão da Gardy, mas a história da pastelaria também é feita pelos funcionários. Alguns acumulam décadas de casa e há quem tenha começado a trabalhar ali aos 16 anos, quando os pais de Ângelo ainda eram os proprietários. São pessoas que cresceram juntamente com a pastelaria e que fazem parte da sua memória.

Um pedaço da história de Faro

A Gardy guarda ainda uma parte da história do próprio edifício. Um dia, durante umas obras efetuadas pelo pai de Ângelo, foi descoberto um teto escondido. Em vez de o voltar a cobrir, Ângelo decidiu recuperar a estrutura, deixando à vista quatro abóbadas de tijoleira.

A técnica, tradicional nos países mediterrâneos, e frequente na arquitetura popular do Alentejo e do Algarve, é a traça original do edifício, que poderá ter entre 300 e 400 anos. No interior há ainda um salão com colunas, pinturas e fotografias, mas é no balcão que se concentra grande parte da atenção. Ali expõem-se os doces que fizeram a fama da casa, como o Dom Rodrigo ou os folhados de Tavira.

Ao longo das décadas, a pastelaria tornou-se um ponto de encontro entre farenses, visitantes e turistas. Há clientes habituais da cidade, outros que vêm de fora e muitos que, depois de conhecerem a Gardy, fazem questão de regressar. É uma pequena demonstração da forma como o espaço ultrapassou há muito as fronteiras da cidade. Em 2002, a pastelaria foi condecorada com a Medalha de Mérito Turístico da Secretaria de Estado do Turismo.

Depois de assumir o negócio dos pais, Ângelo decidiu apostar num novo conceito e abriu, em 1985, a Croissanteria Gardy. O espaço ficava na mesma rua, a menos de dez metros da pastelaria, e rapidamente ganhou uma identidade própria.

A estrela da casa eram, naturalmente, os croissants e a sua preparação distinguia-se pelo que Ângelo descreve orgulhosamente como “a receita de croissants recheados à moda antiga”: eram recheados antes de irem ao forno, permitindo que o interior fizesse parte da própria cozedura.

Com recheio de chocolate e doce de ovos, entre outros, acabaram por conquistar muitos dos clientes habituais da Gardy que, ao longo das décadas, desciam a rua de Santo António para saborear de um café e um croissant Gardy.

A Croissanteria acabou por encerrar este ano, por não conseguir suportar um aumento significativo do valor da renda do imóvel. De acordo com informações partilhadas nas redes sociais, os responsáveis afirmaram que era incomportável continuar com o projeto devido ao aumento proposto, que pretendia triplicar o valor da renda. No entanto, os famosos croissants continuam disponíveis na pastelaria, onde permanecem lado a lado com Dom Rodrigo, folhados de Tavira e os restantes doces que fizeram a reputação da Gardy.

Hoje, Ângelo confessa não ter grandes planos para o futuro da Gardy, mas tem uma certeza: enquanto ele e a mulher forem vivos, quer continuar. “Depois, não sei o que lhe vai acontecer”, afirma. O proprietário não nega a possibilidade de a filha ou o neto assumirem o negócio, mas não lhes impõe essa expectativa. 

No entanto, independentemente do seu destino, a Gardy foca-se no presente, pois foi assim que conseguiram manter-se ao longo de décadas: estando presentes para quem os procura. Talvez seja essa a melhor definição para a história da pastelaria: continuidade de uma família, de receitas, de funcionários, de clientes e de uma tradição que fez de Faro uma casa há 70 anos.

Carregue na galeria para conhecer a Gardy.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua de Santo António 33
    8000-282 Faro
  • HORÁRIO
  • De Segunda-Feira a Sábado das 08:30h ás 19:30

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